A 'refundação' do Brasil

Os bolsonaristas mais animados querem incluir o Brasil em uma espécie de “Internacional” da direita capitaneada por Donald Trump. Tal iniciativa em nada difere da antiga concertação bolivariana

O Estado de S.Paulo

03 Dezembro 2018 | 03h00

Jair Bolsonaro cometerá um sério equívoco se julgar que sua missão, como presidente da República, é refundar o País. O mesmo erro cometeu o sr. Lula da Silva, ao considerar-se o grande pioneiro do Brasil, menosprezando todos os que vieram antes dele, desde Cabral. O resultado, no caso de Lula, foi um país cindido, em que a discussão democrática sobre os principais problemas do País foi interditada, já que o grupo no poder se arvorou no único e legítimo proprietário da verdade.

O fato de que Bolsonaro foi eleito com base em algumas ideias que calaram fundo no sentimento do eleitorado não significa que o Brasil deixou de ser o Brasil nem que os brasileiros deixaram de ser os brasileiros. O sentimento religioso - abrangente e tolerante - e patriótico da Nação, que atravessa gerações, não se transformou em algo radicalmente diferente por obra e graça do voto na urna.

Uma parte considerável dos eleitores que escolheram Bolsonaro em outubro também ajudou a eleger tanto Lula da Silva como Dilma Rousseff em outros tempos. É bom lembrar que, a certa altura de sua trajetória como presidente, Lula da Silva chegou a ter quase 90% de popularidade, mesmo em meio a crescentes e cabeludos escândalos de corrupção. Logo, a expectativa depositada em Bolsonaro pouco ou nada difere da expectativa que cercou os outros governantes. E tal expectativa sempre girou em torno da esperança de prosperidade, bem-estar e tranquilidade prometida pelo candidato majoritário. E a popularidade dele terá relação direta com sua capacidade de criar as condições necessárias para a satisfação dos anseios do conjunto dos cidadãos.

Por essa razão, malgrado o fato de que evidentemente precisa se empenhar para cumprir suas promessas de campanha, Bolsonaro deve ter em mente que precisa igualmente respeitar as aspirações gerais que transformam todos os eleitores - tanto os de Bolsonaro como os que escolheram outros nomes - em uma nação. Tais sentimentos o precedem.

Bolsonaro não recebeu mandato para fazer tábula rasa de tudo o que veio antes dele. Muitos de seus eleitores e alguns de seus assessores acreditam que essa seja precisamente sua tarefa, mas um governante só se torna um estadista de fato quando reconhece os avanços promovidos pelos antecessores e se dispõe a administrar o País conciliando ideias, em vez de desqualificar, de saída, tudo o que representa o passado. Governos com pendores revolucionários costumam frustrar expectativas - e o malogro do lulopetismo, aquele que prometeu realizações como “nunca antes na história deste país”, deveria servir de advertência aos que hoje se apresentam como campeões do “novo”.

Se mais exemplos concretos são necessários, basta lembrar a passagem de Carlos Menem pela Presidência da Argentina (1989-1999). Em seu primeiro mandato, Menem, assim como promete fazer agora Bolsonaro, rompeu a política de seus antecessores - e, na verdade, certas tradições - e alinhou a Argentina automaticamente aos Estados Unidos, estabelecendo o que o então chanceler argentino, Guido di Tella, qualificou como “relações carnais” com os norte-americanos. Essa atitude simbolizou a disposição de proceder a uma revisão radical de todas as políticas do passado, em especial as do antecessor, Raúl Alfonsín, mas na prática os problemas estruturais argentinos não foram enfrentados. A festa acabou em 1995, quando uma alta de juros nos Estados Unidos deflagrou uma brutal crise que estagnou a economia argentina e elevou o desemprego e a inflação.

Também no caso de Bolsonaro, a aproximação explícita e incondicional com os Estados Unidos serve, em primeiro lugar, para simbolizar a prometida ruptura com certas fases do passado, sobretudo com o lulopetismo - marcado pelo terceiro-mundismo na política externa. Os bolsonaristas mais animados querem incluir o Brasil em uma espécie de “Internacional” da direita capitaneada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Tal iniciativa em nada difere da antiga concertação bolivariana que presumia haver solidariedade automática entre países latino-americanos apenas pelo fato de que estavam sendo governados por esquerdistas.

Ou seja, se não tiver fundamentos sólidos, a anunciada revolução bolsonariana, a julgar pelo que se viu até aqui, pode acabar reproduzindo os erros do menemismo.

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