A renda volta a crescer

São ganhos porcentualmente pequenos, mas que se repetem há pelo menos quatro meses

O Estado de S.Paulo

24 Junho 2017 | 03h00

Embora o desemprego continue muito alto e a economia ainda não dê sinais firmes de retomada do crescimento, os trabalhadores que conseguiram manter uma ocupação com carteira assinada estão obtendo ganhos de renda. Por causa da expressiva desaceleração da inflação observada desde o início do ano passado, um número crescente de categorias profissionais vem conseguindo concluir negociações e acordos coletivos que lhes asseguram aumentos reais. São ganhos porcentualmente pequenos, mas que se repetem há pelo menos quatro meses, tendem a se repetir pelo menos até o início do segundo semestre e caracterizam uma reversão do quadro observado no mercado de trabalho no ano passado, marcado por perdas de renda real para a maioria das categorias de trabalhadores.

Tem sido rápida a queda da inflação. A variação acumulada em 12 meses do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), utilizado nas negociações salariais, caiu de 11,31% em janeiro do ano passado para 3,35% em maio último. O Banco Central estima que, em agosto, a variação acumulada do INPC em 12 meses estará em 2,69%.

Observadores do mercado de trabalho notam que, mesmo em época de dificuldades econômicas, não poucos empregadores concordam, nas negociações com os trabalhadores, em conceder aumentos reais, mas muitas vezes à custa do corte de pessoal. Assim, nem todos mantêm o emprego, mas os que continuam empregados passam a ganhar mais. Em situações como essas, o salário real médio pode crescer, mas nem sempre a massa salarial real o acompanha.

Neste ano, a notável desaceleração da inflação também passou a favorecer os salários reais. Em maio, pelo quarto mês consecutivo, o boletim Salariômetro – acompanhamento mensal das negociações coletivas feito pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) da Universidade de São Paulo – constatou que houve aumento real nos salários negociados.

Na mediana das negociações e acordos salariais aferidos pelo boletim, o aumento no mês passado foi de 1%. Em média, os salários negociados tiveram aumento nominal de 4% em maio, enquanto a variação do INPC acumulada em 12 meses até abril (mês de referência para as negociações) foi de 3,99%. Somente 4,1% dos acertos acompanhados pela Fipe tiveram correção inferior à inflação, o menor porcentual desde o início da série, em 2007, e bem abaixo da média dos últimos 12 meses, de 29,9%.

Outro dado relevante do Salariômetro é o de número de acordos de redução de jornada e de salários, recurso que evita demissões imediatas. Nos cinco primeiros meses do ano passado foram assinados 151 acordos desse tipo monitorados pelo Ministério do Trabalho, com ou sem o uso de recursos do Programa Seguro-Desemprego ou do Fundo de Amparo ao Trabalhador; de janeiro a maio deste ano, apenas 30.

São mudanças notáveis em relação à situação observada no ano passado. No balanço das negociações dos reajustes salariais de 2016, que examinou 714 acordos em todo o País, o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) constatou que apenas 19% – pouco menos de um entre cinco – dos reajustes resultaram em ganhos reais de salários; 44% tiveram reajuste igual à variação do INPC e os demais 37% não repuseram integralmente a inflação. Em média, os reajustes ficaram 0,52% abaixo da inflação.

Ganhos reais de rendimento, ainda que em boa parte decorrentes da queda acelerada da inflação, implicam aumento do poder de compra. Isso significa que haverá mais recursos disponíveis para o consumo nos próximos meses. Se a esses ganhos se somar o crescimento, já indicado nas mais recentes estatísticas do Ministério do Trabalho, do número de trabalhadores empregados no mercado formal – isto é, com carteira assinada e as garantias daí decorrentes –, pode-se prever uma recuperação forte do mercado de trabalho.

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