A república do lixo

Sem dúvida, a situação do governo do Líbano é única no mundo. Formado a duras penas em fevereiro de 2014, com 24 ministros representando as diversas correntes políticas do país, o destino dessa equipe “de interesse nacional” teria um destino pouco comum, para não dizer histórico.

Issa Goraieb*, O Estado de S. Paulo

02 Agosto 2015 | 07h15

 

Nos termos da Constituição, esse governo na verdade tem as atribuições do presidente da República uma vez que o Parlamento mostrou-se incapaz de eleger um novo chefe de Estado, isso por falta de quórum. Os libaneses, há muito tempo desiludidos, não esperam milagres desse “super-governo”, mas no mínimo uma gestão mais ou menos satisfatória dos inúmeros e urgentes problemas do país. 

Mas só tiveram direito ao pior das vicissitudes, ou seja, um órgão executivo totalmente paralisado. Isso em razão dos profundos desacordos internos e também em razão da inexistência, na Constituição, de regras definindo com precisão o mecanismo inerente a qualquer tomada de decisão governamental. 

Como resultado dessa lacuna, vários dos 24 membros do gabinete se outorgaram um real direito de veto, bloqueando mais de 200 decretos pendentes, alguns deles de máxima urgência. É o caso da indicação de um novo comandante do Exército e de um novo chefe do Estado-Maior, uma vez que o mandato dos atuais titulares em breve vai expirar. O gabinete também continua dividido sobre os termos de uma troca de prisioneiros com radicais islâmicos que, há mais de um ano, mantêm reféns mais de 20 soldados e policiais libaneses. 

O Parlamento, por sua vez, também não escapa da paralisia: só consegue se reunir para ratificar os empréstimos e doações internacionais fornecidos ao Líbano que correm o risco de, com o tempo, desaparecer. Em todos os outros países não são necessárias tantas faltas graves para provocar a queda de um governo. Mas não é o caso no Líbano, pois nenhum dos blocos rivais está disposto a assumir a responsabilidade de uma derrocada que provocaria um vazio institucional completo. 

Eis que o ponto crítico de repente foi atingido e o premiê Tammam Salam ameaça se demitir. À primeira vista o detonador da crise potencialmente fatal é um fato surpreendentemente banal, envolvendo os serviços de limpeza. Mas o problema não só assumiu em poucos dias proporções gigantescas, com o acúmulo de lixo tomando conta das ruas de Beirute e de outras grandes aglomerações, mas os conflitos de interesse, tanto materiais quanto políticos, vieram envenenar ainda mais o debate ao mesmo tempo em que deixou à vista de todos um passado de corrupção, negligência e imprevidência criminosa. 

A crise explodiu em meados de julho, quando expirou o contrato, que era renovado regularmente havia mais de 20 anos, com a sociedade Sukleen, encarregada do recolhimento e tratamento do lixo em Beirute e em 225 cidades e vilarejos do Monte Líbano. Esta empresa se beneficiava de uma cobrança de tarifas excessiva, mas executava muito mal suas tarefas, especialmente a triagem e reciclagem de resíduos. Mas o mais triste é que as empresas que se habilitaram (e, como a Sukleen, desfrutam de todas as proteções políticas) exigem as mesmas vantagens, na falta de um programa estatal coerente. 

Quando expirou o contrato com a empresa, a população de Naamej cumpriu sua ameaça de fechar para sempre o aterro sanitário nos arredores da pequena cidade situada ao sul de Beirute que, desde 1997, recebia, provisoriamente, a maior parte do lixo do país. E assim, enquanto verdadeiras montanhas de detritos tomam conta cada dia mais das calçadas, as municipalidades de várias localidades libanesas se uniram na mesma recusa de acolher em suas terras os detritos dos outros. 

Celebrado pela Bíblia como o país do mel e do leite, o Líbano desmorona sob o próprio lixo e seus dirigentes se confessam incapazes de salvar deste singular naufrágio o que a imprensa chama de república-lixeira. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É colunista do 'Estado' e diretor do jornal de Beirute L'Orient-LeJour

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