A resistência ao acórdão

Desde que o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) foi à tribuna para desculpar-se por ter protagonizado - junto com o colega Renan Calheiros (PMDB-AL) - uma das cenas mais vergonhosas da história do Senado da República, estava dada a senha para o início da costura do "acordão" - ainda não completada e que, certamente, não será de fácil digestão para a opinião pública. É que a "paz" política que governo e oposição têm pretendido restabelecer na Câmara Alta tem um alto preço ético: a anistia recíproca de todas as indecências praticadas pelos ilustres representantes das unidades da Federação no Poder Legislativo nacional. Nepotismo, atos secretos - quase mil, agora -, funcionários fantasmas, custeio com recursos públicos de despesas de terceiros sem quaisquer vínculos de serviço com a Casa Legislativa, auxílio-moradia indevido, abusos no uso de passagens aéreas, diretorias administrativas de funções quase surrealistas e mais um sem-número de formas de locupletação, comprometendo até parlamentares oposicionistas marcados por discursos críticos e moralizantes - tudo isso, com certeza, entrará no tratado de paz entre o governo e a oposição, em nome do retorno ao trabalho e à agenda legislativa do Senado. É claro que nesse processo de costura tem sido utilizada a velha receita das "informações" que acusados têm sobre seus acusadores e a ameaça de utilizá-las a qualquer momento - no que os senadores alagoanos Renan e Collor deram, recentemente, exibições de mestria. Por outro lado, reconheça-se a capacidade do presidente Lula - auxiliado pela facilidade do seu líder no Senado, Romero Jucá, para defender, sem rubor na face, o indefensável - de condimentar, no melhor estilo, a geleia político-partidária que tem dado sustentação a seu despudorado governo. No entanto, ainda há uma resistência ao "acordão" - e ela se chama Partido dos Trabalhadores (PT), por suas divergências internas quanto ao julgamento ou não do senador maranhense do Amapá e presidente da Casa, José Sarney, no Conselho de Ética, e, especialmente, pela posição assumida por seu líder, senador Aloizio Mercadante (SP) nessa questão. Quando Mercadante foi ao gabinete de Sarney, na noite de quarta-feira, para lhe comunicar sua resistência a absolvê-lo in limine, sem que o Conselho de Ética tivesse a oportunidade de pronunciar-se em pelo menos uma das 11 acusações (a relacionada com o emprego do namorado da neta), a reação de Sarney foi explosiva e o tom da discussão elevou-se a decibéis mais adequados a um botequim do que ao gabinete do presidente de um Poder de Estado. Como não poderia deixar de ser - já que argumentos para inocentar-se ali de nada serviriam (se existissem) -, na discussão, presenciada pela senadora Ideli Salvatti (PT-SC), Sarney cobrou de Mercadante fidelidade à aliança entre PT e PMDB, com vistas à sucessão presidencial e ao indispensável apoio dos peemedebistas à candidata ungida do Planalto, Dilma Rousseff. Embora tenha negado - como também era de esperar - a negociação de qualquer acordo entre governo e oposição, para colocar-se uma pedra no conjunto de denúncias contra Sarney, o senador Paulo Duque antecipou-se em exibir uma contrapartida de pacificação, ao mandar para o arquivo as denúncias do PMDB contra o líder tucano Arthur Virgílio, da mesma forma como arquivara aquelas contra Sarney. Assim como o PSDB entrou com recurso contra a rejeição das denúncias a Sarney, no Conselho de Ética, o PMDB também recorre da rejeição das denúncias contra o senador Virgílio. Mas está muito claro, no ponto de cozimento a que chegou o "acordão", que esse recurso peemedebista não passa de farsa. O resumo dessa ópera bufa é que está nas mãos do PT, e especificamente na de seus representantes no Conselho de Ética - que são os senadores Delcídio Amaral, Ideli Salvatti e João Pedro, precisando os dois primeiros reelegerem-se em 2010 -, a aceitação ou não, no plenário do colegiado, do recurso contra a rejeição das denúncias a Sarney, uma vez que a oposição ali só tem 5 representantes (entre 15) e precisa dos votos petistas para fazer maioria. Então, há resistência, mas segue o "acordão" - que também pode ser chamado de superpizza - para seu estágio final de cozimento, já que parece improvável que Mercadante consiga levar o PT a repudiar a (velha) receita planaltina. Agora, como o eleitorado digerirá tudo isso, é uma outra história.

, O Estadao de S.Paulo

14 de agosto de 2009 | 00h00

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.