A resistência da economia

É como se ela estivesse, ainda que parcialmente, se descolando da política

O Estado de S.Paulo

20 Junho 2017 | 05h11

Era inevitável que o agravamento da crise política decorrente da delação do empresário Joesley Batista, do Grupo JBS, tentando envolver diretamente o presidente Michel Temer em casos de corrupção, turvasse o ambiente econômico, no qual começavam a surgir sinais de uma lenta recuperação. O impacto da crise política sobre a economia, porém, não está sendo tão devastador como se temia. O ambiente obviamente se tornou mais sombrio do que o de um mês antes, quando o conteúdo da delação veio a público. Nesse período, economistas do mercado financeiro regularmente ouvidos pelo Banco Central para a elaboração do boletim semanal Focus, por exemplo, revisaram sua projeção para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2017 de 0,50% para 0,40%; para 2018, a revisão foi de 2,30% para 2,20%. Mas, em meio a tanta notícia preocupante, a economia vem mostrando uma surpreendente capacidade de resistência, como mostrou o Estado no caderno especial O Brasil além da crise que acompanhou sua edição de domingo passado. É como se a economia estivesse, ainda que parcialmente, se descolando da política.

É provável que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduza a velocidade de queda da taxa básica de juros, a Selic, mas, se não ocorrer um desastre na gestão da política fiscal, o processo de queda será mantido. O crescimento da economia, mesmo menor do que o previsto há algum tempo, marcará o fim de uma recessão profunda, que resultou na paralisia dos investimentos e, sobretudo, no desemprego de 14 milhões de brasileiros em idade de trabalhar. Embora com seus agentes se mantendo atentos à evolução da crise política, o mercado financeiro continua a operar regularmente.

Há razões concretas para essa relativa autonomia da economia em relação à política, como mostrou o caderno especial publicado por este jornal. A despeito dos sérios problemas que enfrenta para assegurar sua sobrevivência em meio a uma avalanche de delações e acusações, o governo do presidente Michel Temer mantém-se firme na defesa de seu projeto de reformas. “Ninguém aprovou tanta coisa importante em tão pouco tempo como o Temer”, disse ao Estado o economista e ex-deputado federal Delfim Netto, que ocupou diversos Ministérios.

A lista de realizações, de fato, é expressiva. Desde que assumiu o cargo em substituição a Dilma Rousseff, há pouco mais de um ano, Temer conseguiu a aprovação da emenda constitucional que impôs um teto para a expansão dos gastos públicos e de mudanças no marco regulatório do setor de petróleo e gás e nas exigências de conteúdo nacional para a exploração do pré-sal. Propôs as necessárias reformas previdenciária e trabalhista, impôs gestão rigorosamente técnica a empresas antes utilizadas fartamente pelos governos lulopetistas para seus objetivos político-eleitorais e anunciou um ambicioso programa de concessões e privatizações.

A inflação, de sua parte, caiu de 9,5% há um ano para menos de 4%, e mantém a tendência de baixa. Deverá ficar bem abaixo da meta de 4,5% e muito próxima do limite mínimo de tolerância fixado pela política de metas inflacionárias, de 3%.

Nem tudo, porém, caminha da maneira desejável. Embora não as tenha colocado em risco, a crise impôs novos prazos para a discussão e a votação das reformas. O programa de concessões, a despeito de suas regras muito mais condizentes com o regime de economia de mercado – com a eliminação, por exemplo, das taxas de retorno incompatíveis com a remuneração dos investimentos que o governo Dilma impunha –, pode não alcançar a meta de investimentos prevista para este e para o próximo ano. O pior será se, acuado pela crise, o governo Temer recorrer a medidas que deram errado no governo Dilma, para tentar estimular artificialmente a atividade econômica e ganhar alguma popularidade, como o aumento do volume de crédito, inclusive com juros subsidiados.

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