A retomada dos corredores

A retomada do projeto de construção de um corredor de ônibus na Radial Leste, anunciada recentemente pelo prefeito Bruno Covas, tem dupla importância

O Estado de S.Paulo

17 Junho 2018 | 03h00

A retomada do projeto de construção de um corredor de ônibus na Radial Leste, anunciada recentemente pelo prefeito Bruno Covas, tem dupla importância. A primeira, evidentemente, pela obra em si, supondo que ela seja de fato levada avante, ressalva que se impõe pelo histórico de desleixo e promessas não cumpridas nesse setor. Basta lembrar a propósito que ela vem sendo prometida desde 2011. A segunda porque traz de volta a discussão sobre a necessidade de aumentar a modesta malha de corredores, que têm um papel de reconhecida relevância para a melhoria do transporte coletivo na capital.

Um longo atraso absolutamente injustificável, porque a Radial Leste é a principal ligação viária entre a zona leste e o centro. O corredor, a ser construído no canteiro central da via, terá 28,8 km – ligando a Estação Guaianases da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) ao terminal de ônibus Parque Dom Pedro – e deverá transportar diariamente 25 mil passageiros, segundo estimativa da Prefeitura. Terá 29 paradas, túneis e viadutos. 

Será um corredor do tipo BRT (via rápida de ônibus). Tendo em vista seu alto custo – previsto em R$ 550 milhões – e as dificuldades financeiras do Município, Covas está convidando empresas possivelmente interessadas em participar da obra, no modelo de Parceria Público-Privada (PPP), a apresentarem propostas até janeiro de 2019. A execução do projeto dependerá, portanto, não só do empenho da Prefeitura, como do interesse da iniciativa privada. 

Logo se saberá se ambos coincidirão, mas desde já a iniciativa deveria servir para reabrir o debate sobre os corredores. Essas vias exclusivas para ônibus têm papel comprovado no aumento da velocidade desses veículos, se comparada com sua lentidão quando trafegam em meio ao trânsito quase sempre congestionado da cidade. Se elas até agora não tiveram a atenção que merecem, isso se deve certamente à visão de curto prazo da maioria dos administradores públicos, que preferem investir em obras vistosas e que garantem retorno eleitoral imediato, mesmo que não sejam as que melhor atendem ao interesse público.

Os corredores são caros, exigem pistas especiais reforçadas, por causa do trânsito constante de veículos pesados, e estações de embarque e desembarque. E sua construção também é demorada, o que faz com que a expansão da rede dessas vias, na medida das necessidades da cidade, só seja possível ao longo de vários mandatos. O mesmo que, guardadas as devidas proporções, ocorre com a rede do Metrô. Tudo isso tem feito com que a implantação da rede de corredores venha se arrastando lentamente, desde que o primeiro deles – o Santo Amaro-Nove de Julho – teve sua construção iniciada no governo de Mário Covas (1983-1985). 

Nessas mais de três décadas, conseguiu-se construir apenas 130 km de corredores. Os governos que se sucederam desde o de Covas, ou deram pouca importância aos corredores ou a reconheceram, mas não cumpriram as promessas de uma expansão rápida da rede. Todos têm sua parcela de responsabilidade nesse atraso, mas aumentada no caso do ex-prefeito Fernando Haddad. Não porque deixou mais do que os outros de fazer o prometido, mas porque, além disso, criou a falsa impressão de que havia uma solução mágica, rápida e barata, para substituir os corredores.

Foram as faixas exclusivas, que se multiplicaram em um ritmo impressionante, pois não era preciso muito mais do que simplesmente escolher o itinerário e fazer a marcação e a sinalização indicando sua existência, sem pistas reforçadas. Não admira que a meta inicial, de 150 km, tenha sido muito mais do que dobrada por Haddad, chegando a 412 km.

É mais do que tempo de acabar com essa mistificação e retomar a construção dos corredores, caros, demorados, mas de grande importância para aumentar a eficiência do serviço de ônibus. Vale o esforço, porque o ônibus ainda é – e vai continuar assim por um bom tempo – o principal meio de transporte coletivo da capital, responsável por 59% das viagens.

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