A revitalização do Incor

Na qualidade de professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), exerci de 1983 a 1997 o cargo de diretor científico do Instituto do Coração (Incor) e, com a aposentadoria do professor Fúlvio Pillegi, até 1999, quando fui aposentado, o de diretor-geral.Durante esse período aprimoramos, juntos, o modelo de Fundação de Apoio, criada em 1978 pelo professor Euryclides de Jesus Zerbini, que passou, então, a se chamar Fundação Zerbini.Em vários artigos na imprensa e em inúmeras palestras e conferências, defendi esse modelo, que tinha como base os antigos Fundos de Pesquisa dos institutos de pesquisa de São Paulo, extintos no final dos anos 70 e substituídos pelos Fundos Especiais de Despesas.A criação, por Zerbini, da Fundação de Apoio ao Incor representava de alguma forma a recriação do Fundo de Pesquisas criado por Dante Pazzanese.Em mais de um artigo publicado na imprensa, demonstrei que um terço do orçamento do Incor era bancado pelo Estado, responsável pela instituição pública. Os outros dois terços eram captados pelos serviços prestados pela instituição. Cerca de 40% dessa captação era feita de 75% a 80% de atendimento da clientela do Sistema Único de Saúde (SUS), enquanto 60% provinham de 20% a 25% da clientela privada e de planos e convênios de saúde. Os recursos arrecadados agilizavam a administração e grande parte era utilizada para complementar o salário de todos os funcionários, aproximando-os dos valores de mercado. Esse modelo foi o responsável por transformá-lo num dos mais importantes institutos de cardiologia em todo o mundo.O êxito do modelo permitiu acumulação de recursos, que foram utilizados, somados a empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), na construção do bloco II, que ampliou significativamente a capacidade não só de atendimento do Incor, mas também da pesquisa básica, bem como a solução de alguns problemas críticos, como, por exemplo, o do estacionamento, criando mais de 300 vagas em três andares de garagem.A euforia por tamanho sucesso levou a que dirigentes da fundação assumissem a contratação de 1.500 funcionários e demais despesas, para fazer funcionar o bloco II, providências essas que deveriam ser assumidas pelo governo do Estado. Simultaneamente, vários projetos não focados no Incor São Paulo, como o Incor Brasília, entre muitos outros, ampliaram e de alguma forma distorceram os objetivos da fundação.Isso tudo resultou num acúmulo de compromissos financeiros que, somados às correções do empréstimo do BNDES e da rede bancária privada, levaram à quase insolvência da fundação, com repercussão no Incor São Paulo, que teve comprometida sua capacidade de manutenção, seja do prédio, seja dos equipamentos, responsáveis pela posição de liderança inconteste que ocupava.A grave situação financeira e seus reflexos ecoaram na mídia, levando à preocupação com a possibilidade de o Incor não conseguir manter a alta qualidade dos serviços que prestava.Isso ocorria quando a rede privada ampliava sua capacidade de atendimento em cardiologia a convênios e particulares, levando à perda parcial dessa clientela.O resultado pode ser medido pela inversão dos componentes de captação pelos serviços prestados. Da clientela SUS, com pouco mais de 80%, captam-se hoje 60% dos recursos, enquanto de convênios e particulares, com pouco menos de 20% da clientela, captam-se 40% dos recursos.Havia necessidade urgente de solucionar o problema da dívida, que ultrapassava R$ 200 milhões, e, ao mesmo tempo, de investir no prédio e reequipá-lo - com equipamentos novos e os que precisavam de substituição.Uma grande engenharia administrativa foi elaborada, com renegociação da dívida com fornecedores e bancos privados e, com a ajuda do governo do Estado, solucionada a do BNDES, com prazos compatíveis com a capacidade financeira da fundação. Todos os programas que não tinham foco no Incor foram eliminados, restando o problema do Incor Brasília, que afinal teve sua administração transferida e todos os encargos com funcionários quitados, voltando a Fundação Zerbini a se preocupar exclusivamente com o Incor São Paulo.Com todos os problemas financeiros equacionados, a operação voltou a ser positiva, garantindo a quitação de todos os débitos consolidados nas renegociações.Emendas de parlamentares agregaram R$ 50 milhões, já parcialmente liberados pelo Ministério da Saúde para o reequipamento do Incor, com substituição dos equipamentos, incorporando a mais moderna tecnologia, que vai permitir a retomada da posição de liderança, contribuindo para o engrandecimento do Hospital das Clínicas da FMUSP.Durante todo o período de dificuldades enfrentadas, foi emocionante a atitude do pessoal do Incor, do mais modesto funcionário aos professores titulares, que se mantiveram solidários e coesos em defesa da instituição que eles ajudaram a construir, e a conquistar o respeito da comunidade científica pelo alto padrão de atendimento, pesquisa e ensino, tanto graduado como pós-graduado.Já se iniciou o retorno à operação superavitária da fundação, que consagrou o modelo de gestão do Incor, amparado por sua Fundação de Apoio.Depois de um período de turbulência, causado por problemas, já inteiramente sanados, de sua Fundação de Apoio, retoma o Incor a sua trajetória de liderança no cenário médico-hospitalar, contribuindo para o engrandecimento da medicina brasileira. Adib D. Jatene, professor emérito da FMUSP, é representante do Conselho Consultivo no Conselho Curador da Fundação Zerbini

Adib D. Jatene, O Estadao de S.Paulo

21 de julho de 2009 | 00h00

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