A ruína da redenção

A Operação Lava Jato lavou a máscara petista da defesa da ética na política

Denis Lerrer Rosenfield*, O Estado de S.Paulo

02 Maio 2016 | 04h00

Estamos no epílogo de um longo período de obscurantismo, que começou com uma promessa de esclarecimento. Desde o começo, o esclarecimento, porém, tinha um forte componente religioso, baseado na ideia de uma espécie de redenção nacional. A História estaria recomeçando a partir de um ponto zero, divisor de águas entre o antes e o depois. É como se os séculos do País devessem dali em diante ser contados de outra maneira. Expressões típicas dessa vocação religiosa são a “herança maldita” e “nunca antes neste país”.

A primeira pôs especial relevo em que tudo o que existia anteriormente estaria marcado por um tipo de maldição indelével, fruto de pecados sucessivos, que eram, na verdade, crimes irremissíveis. Do ponto de vista do discurso político, era o resultado de uma visão de esquerda segundo a qual o capitalismo, o lucro, a propriedade privada e o mercado deveriam ser conjurados e controlados severamente.

Um deus político de novo tipo deveria ser honrado, manifestando-se sob a forma de um Estado intervencionista. O lucro era o pecado e o Estado, a redenção. O passado era condenável e o futuro, promissor. Seus instrumentos: o PT e um líder carismático com pretensões messiânicas. Um toque deste podia ungir uma candidata a presidente ou um candidato a prefeito.

A segunda marcava, com fervor, o anúncio do amanhecer de um novo dia. As trevas fariam parte do passado, os tucanos seriam sua caricatura e um recomeço estaria por vir. A certeza religiosa seria uma prova de sua revelação. Os “pobres” seriam resgatados, apresentando-se como o símbolo dessa nova época.

Note-se, particularmente, que esse discurso não cessou de ser repetido, mesmo se tratando, sob forma prosaica, da continuação, em maior escala, de programas sociais de governos anteriores. Não havia recomeço, apenas a retomada de algo dado.

Mais precisamente ainda, a dita ascensão da nova classe média foi o resultado de uma política voltada para o mercado consubstanciada no Plano Real, que emancipou milhões de indivíduos numa economia estabilizada. Nesse sentido, foi o mercado, não o Estado, o verdadeiro redentor, salvo na acepção de que lhe coube livrar o País da inflação e introduzir uma verdadeira responsabilidade fiscal.

Havia, porém, naquela política de cunho religioso/esquerdizante um componente de suposto esclarecimento, tendo como eixo central a ideia da ética na política, de limpeza da esfera pública, em nome de uma outra moralidade. Trava-se, na verdade, de uma exigência da sociedade por uma nova política. A promessa messiânica, no entanto, não tinha fundamento algum. Esvaiu-se em seus interesses escusos e, num primeiro momento, ocultos. A sociedade levou tempo para perceber o engodo em que havia acreditado. Foram penosos 13 anos, que, agora, encontram o seu término.

Interessante observar que a miopia ideológica que tomou conta dos cidadãos deste país foi de tal grau que nem o mensalão, germe do petrolão e da ruína atual, foi, naquele então, compreendido em sua verdadeira dimensão. Já na época havia elementos suficientes para um impeachment, mas as condições políticas estavam ausentes.

Até os tucanos tiveram um problema ideológico em dar início a um processo desse tipo contra quem era considerado um “trabalhador” – na verdade, um sindicalista de profissão. Era a concepção de esquerda que, blindada, se debatia com seus próprios fundamentos. A ética e a política foram sacrificadas em nome de uma crença de esquerda então ainda vigente.

Curioso também notar que na votação do impeachment na Câmara os petistas e seus “intelectuais” de plantão se insurgiram contra um suposto baixo nível dos deputados que votaram em nome da família e de Deus. Por que a indignação, se até pouco tempo atrás esses mesmos deputados eram afagados e tratados com respeito? Por que teriam mudado de posição e não mais obedeciam às ordens dos salvacionistas? Os religiosos petistas pretendem posar de “esclarecidos”. É, no mínimo, hipocrisia!

Como num barco afundando, a visão salvacionista começou a fazer água por todos os lados. Os cidadãos começaram a acordar de um longo pesadelo. Chegaram a lotar as ruas e começaram a caminhar por conta própria. A Operação Lava Jato foi uma espécie de culminação deste despertar, lançando as bases de um novo relacionamento dos cidadãos com a coisa pública. Não sem razão, tornou-se um patrimônio nacional.

O nome da operação já sinaliza a lavagem que pretendia da corrupção e da malversação dos recursos públicos, numa triangulação entre empreiteiros inescrupulosos, governo sem caráter e funcionários/militantes a serviço partidário. Lavou a máscara petista da suposta defesa da ética na política. A fachada do governo Dilma exibiu um porão podre, fétido, cujo odor foi sentido pela sociedade em seu conjunto. A mensagem salvacionista ruiu. O Estado intervencionista expôs toda a sua incompetência e falta de critérios e moralidade. O PIB afundou em níveis inacreditáveis. Ninguém teria acreditado, alguns anos atrás, em tal competência para a destruição. Os pilares da estabilidade econômica e social foram simplesmente abolidos. O demais foi progressivamente desmoronando.

Ressalte-se que neste seu estertor a presidente Dilma, o ex-presidente Lula e o PT ainda procuram manter o discurso salvacionista, voltado para os pobres e oprimidos, como se não fossem eles os responsáveis pelo desemprego acima de 11 milhões de pessoas, alcançando, em termos familiares, entre 40 milhões e 50 milhões de indivíduos. Uma catástrofe!

O Estado intervencionista/salvacionista não precisa prestar contas a ninguém senão a si mesmo. A irresponsabilidade é a sua marca. A sua consequência, o descalabro fiscal. Não deveriam, pois, surpreender a instauração de uma “contabilidade criativa” e a prática das “pedaladas fiscais”. Os seus autores apenas sofrem os efeitos da própria irresponsabilidade.

Detalhe: esses mensageiros da ruína se autointitulam “progressistas”!

*Professor na UFRGS; e-mail: denisrosenfield@terra.com.br

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