A Rússia na OMC

Não haverá nada parecido com o que ocorreu após a entrada da China - que começou a receber grandes volumes de investimentos estrangeiros e cujo comércio exterior passou a crescer ao ritmo de 20% ao ano, fatores que, em poucos anos, fizeram sua economia tornar-se a segunda maior do planeta - nem se registrarão grandes transformações no comércio mundial em razão do ingresso da Rússia na Organização Mundial do Comércio (OMC). Tampouco se esperam mudanças substanciais no ritmo de expansão da economia russa, que vem crescendo 4% ao ano. Mesmo assim, este é um fato importante para o sistema de comércio mundial e para a Rússia.

O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2012 | 03h10

Enfraquecida depois do fracasso da Rodada Doha - cujo objetivo era reduzir as barreiras comerciais em todo o mundo e estimular a livre circulação de mercadorias e serviços entre os países-membros -, e criticada pelos movimentos sociais que, estimulados pela crise mundial, atacam com intensidade crescente a globalização e as principais organizações econômicas internacionais, a OMC reforça sua representatividade e importância com a adesão da 9.ª economia mundial, que se tornou seu 156.º membro oficial.

Ela continua a desempenhar papel vital para assegurar o crescimento do comércio mundial. A adesão da Rússia "reforçará, sem dúvida nenhuma, o sistema de comércio multilateral", declarou o diretor-geral da OMC, Pascal Lamy.

A entrada da Rússia na OMC encerra um período de nada menos de 19 anos desde que o país solicitou seu ingresso na organização, pouco tempo depois da desintegração da antiga União Soviética. A persistência do governo russo demonstra seu reconhecimento da importância da filiação à OMC, mesmo que ela implique o compromisso de assumir plenamente obrigações que valem para todos os países-membros e que, até agora, nem sempre foram respeitadas por Moscou.

"A adesão deve garantir (à Rússia) a estabilidade do comércio exterior, a redução das barreiras alfandegárias e administrativas, além da possibilidade de participar na elaboração das regras de cooperação internacional", disse o principal negociador da entrada do país na OMC, Maxim Medvedkov.

Um dos principais efeitos esperados pelo governo de Moscou é o aumento da competitividade da economia russa e a redução de sua dependência das vendas externas de petróleo e gás, os dois principais produtos de sua pauta de exportações. Estas podem ser, de fato, as consequências mais positivas da entrada da Rússia na OMC.

Como primeiro resultado da adesão à OMC, as tarifas médias de importação para 700 produtos devem cair de cerca de 12% para menos de 8%. A concorrência forçará os produtores locais a buscar mais eficiência para oferecer produtos que possam concorrer com os importados. É muito provável que, se não passarem por um choque de competitividade, alguns segmentos da indústria, como a automobilística, enfrentarão sérias dificuldades.

A contrapartida esperada pelo governo russo é a facilidade de acesso a novos mercados, o que poderá resultar na diversificação de suas exportações, com o aumento da participação dos produtos industrializados. O Banco Mundial calculou que, com sua plena integração ao comércio mundial, a Rússia pode ganhar de US$ 53 bilhões a US$ 177 bilhões por ano.

São muitos, no entanto, os obstáculos que o país precisa superar. Lá persiste um capitalismo de compadrio, com grupos econômicos protegidos pelo Estado, o que desestimula a busca de competitividade. Práticas econômicas precisam mudar e instituições mais confiáveis precisam ser construídas. No plano externo, o momento é desfavorável, por causa da persistência da crise e da tendência de aumento do protecionismo em todo o mundo.

Mas a entrada da Rússia na OMC é, certamente, positiva para os países com os quais ela mantém relações comerciais - como o Brasil, que, no ano passado, exportou US$ 4,2 bilhões para o mercado russo - e para o comércio mundial, pois haverá mais garantias de observância das regras internacionais.

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