A sabatina de Tombini

Combater a inflação para defender o poder de compra dos brasileiros continuará sendo a função básica do Banco Central (BC), segundo seu futuro presidente, Alexandre Tombini. Convidado para o posto pela presidente eleita, Dilma Rousseff, ele foi ontem submetido à sabatina regulamentar pela Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. Se alguém esperava algum sinal de mudança na política monetária, decepcionou-se. O depoimento foi mais que uma reafirmação ritual dos princípios seguidos a partir de 1999, quando foram adotados o câmbio flutuante e as metas de inflação. Crescimento econômico e estabilidade de preços não se contrapõem, disse Tombini, ao negar enfaticamente o dilema com frequência apontado pelos críticos da política anti-inflacionária.

, O Estado de S.Paulo

08 Dezembro 2010 | 00h00

"Nos últimos anos", lembrou, "consolidamos a inflação em um patamar baixo e observamos um crescimento médio muito maior que o das décadas passadas."

Críticos do BC costumam invocar o exemplo do Federal Reserve, o Fed, responsável pela política monetária nos Estados Unidos. Seu mandato legal envolve um duplo objetivo: a busca da estabilidade de preços e a sustentação de certo nível de emprego. Mas esses críticos em geral esquecem de observar os detalhes da prática.

O Fed procura conter a inflação ao redor de 2% ao ano. Só afrouxa os controles quando o risco de aumentos de preços parece desprezível ou quando o aperto tende a causar mais danos ao crescimento do que benefícios em termos de estabilidade. Mas esses critérios nunca foram ignorados no Brasil. Além disso, a meta brasileira de inflação tem sido muito mais alta que aquela adotada informalmente nos EUA.

Tombini, funcionário de carreira do BC e atual diretor de Normas, foi um dos formuladores do sistema de metas. Em seu depoimento, defendeu vigorosamente a manutenção do regime e, além disso, rejeitou a ideia de tomar como referência o núcleo da inflação ou qualquer número expurgado.

O índice cheio tem funcionado bem como orientador da política de metas. É simples, inteligível para todas as pessoas e, além disso, facilita o acompanhamento das ações do BC e a avaliação do resultado, argumentou. Está descartada, portanto, a sugestão do ministro da Fazenda, Guido Mantega, de se adotar um índice expurgado, provavelmente sem os preços de alimentos e de combustíveis, para fixação de metas e orientação da política anti-inflacionária.

Indicadores desse tipo, calculados com exclusão dos itens considerados mais instáveis, são usados pelo BC e por especialistas do setor privado como elementos adicionais de análise.

Podem ser úteis, portanto, mas o objetivo da política monetária é manter a inflação no nível definido sem expurgo de nenhum tipo e esse critério será mantido, segundo Tombini.

Ele também voltou a mencionar a autonomia do BC como condição desejável para um bom trabalho. Segundo o economista, a presidente eleita, Dilma Rousseff, declarou a intenção de não interferir nos trabalhos do Copom, responsável formal pela política de juros.

A confiança no BC - e na sua política em defesa da estabilidade - é condição importante para as decisões de investimento e, portanto, para o aumento da renda e do emprego, argumentou.

A autoridade monetária enfrentará dificuldades importantes nos próximos anos, advertiu Tombini, mencionando a insegurança financeira internacional e os desajustes cambiais como fatores de inquietação.

Ele está certo em sua avaliação, mas poderia ter acrescentado um detalhe político e técnico de grande relevância: o governo facilitará a ação do BC se controlar seus gastos e contiver a expansão da dívida pública. No dia anterior, o ministro Guido Mantega havia anunciado a intenção de promover um sério ajuste nas contas federais a partir de 2011. Nesse caso, será possível fixar metas de inflação mais baixas e continuar reduzindo a taxa real de juros. Se, ao contrário, a gastança continuar, a autoridade monetária terá de endurecer sua política para não perder o controle da inflação.

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