A São Paulo mais compacta

Nos últimos seis anos foram construídos na cidade de São Paulo cerca de 3 mil grandes edifícios, com mais de 185 mil novos apartamentos. Eles ocupam terrenos que, em sua maioria, abrigavam residências para uma família. Somente nos últimos três anos, 2.692 casas foram demolidas para dar lugar aos condomínios. Em época de demanda reprimida e maior acesso ao crédito, há falta de terrenos disponíveis na cidade para novos lançamentos imobiliários. A solução é a compra e logo em seguida a demolição de casas em bairros nobres da cidade para, em seu lugar, erguer os espigões.

, O Estado de S.Paulo

01 Novembro 2010 | 00h00

As empresas de demolição comemoram os resultados dessa verticalização - um crescimento anual do seu mercado em torno de 80%. Muitos urbanistas, porém, lamentam a perda da memória da cidade e do sentimento de comunidade da vizinhança que tudo isso acarreta.

É preciso estabelecer normas claras para que imóveis de significativo valor arquitetônico e histórico sejam preservados. Além disso, é necessário também proteger as áreas de preservação ambiental, onde nas últimas décadas se deu boa parte da expansão da cidade. O impacto foi altamente danoso para as Bacias das Represas Billings e Guarapiranga assim como para a Serra da Cantareira, onde desde sofisticados empreendimentos até grandes concentrações de submoradias comprometem a cobertura vegetal e os mananciais, causando graves problemas ambientais para toda a capital e ameaçando o abastecimento de água para a população.

Era inevitável que, diante da maior vigilância do poder público nas áreas de preservação ambiental, a indústria da construção civil se voltasse para o aproveitamento de áreas de baixo adensamento. Na zona sul, bairros como Vila Mariana, Ipiranga e Vila Olímpia assistem ao surgimento de muitos prédios em terrenos antes ocupados por casas. O mesmo acontece em Pinheiros e Pompeia, na zona oeste; Tucuruvi, na zona norte; e Tatuapé, Mooca e Vila Prudente, na zona leste. No Tatuapé, um dos bairros onde o boom imobiliário foi mais intenso nos últimos anos, há aproximadamente 50 empreendimentos em obras e, deles, 11 são condomínios com até oito blocos.

Um dos pontos que deveriam merecer atenção da Prefeitura é a necessidade de aumentar a oferta de transporte público aos moradores desses empreendimentos. O adensamento sem a devida ampliação dos serviços de ônibus, metrô e trens piora o trânsito, aumenta a poluição e o número de assaltos a motoristas em regiões como Vila Olímpia, Itaim e Moema, onde ruas estreitas, planejadas há décadas para atender alguns poucos moradores de casas, passaram a servir de caminho para milhares de pessoas, que preferem usar seus automóveis apesar dos congestionamentos.

Quando a possibilidade de negócios se esgota num bairro, as empresas do setor imobiliário rumam logo para os bairros vizinhos. Recomeça então o que muitos urbanistas chamam de autofagia, processo por meio do qual São Paulo derruba suas casas para construir espigões.

A verticalização torna a cidade mais compacta o que, no caso de São Paulo, pode ser uma boa solução de ordenamento. Desde que haja planejamento para a melhor utilização da infraestrutura já instalada e para o uso misto dos imóveis - residências e serviços -, a fim de possibilitar a redução dos deslocamentos.

A oferta de transporte público, de melhores condições viárias e de uma completa rede de serviços nos bairros adensados são fundamentais para o sucesso do processo de verticalização. É necessária também a requalificação dos espaços por meio das Operações Urbanas, capazes de equilibrar o uso dos imóveis e assegurar a melhoria do entorno dos empreendimentos.

Instrumentos para assegurar o êxito desse tipo de ordenamento urbano existem. Bom seria se a Prefeitura passasse a usá-los em vez de deixar a indústria imobiliária decidir sozinha quais serão os rumos da verticalização.

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