A segunda renúncia de Brown

O primeiro-ministro Gordon Brown esperou 5 dias para fazer, ontem, o que 61% dos britânicos queriam que ele fizesse tão logo os resultados eleitorais da quinta-feira passada confirmaram os prognósticos de que a hegemonia trabalhista de 13 anos no Reino Unido tinha chegado ao fim: renunciar à chefia do governo que exercia desde 2007.

, O Estado de S.Paulo

12 Maio 2010 | 00h00

Na véspera, o sucessor de Tony Blair, considerado o mais complexo premiê britânico desde Winston Churchill e um estrategista político de primeira grandeza, havia tentado um gambito: anunciou que poderia continuar como locatário de 10, Downing Street, a sede do Executivo e residência oficial do seu titular, até setembro, quando a conferência anual dos trabalhistas ratificaria o nome do seu sucessor no comando do partido, a quem ele passaria o bastão do governo.

O lance de Brown se baseava na aposta de uma coligação que manteria os seus no poder, embora com outro titular. Nos pubs londrinos, os cínicos hão de ter dito que ele imitou a seu modo ? e ao do sistema político britânico ? o lendário pedido de Santo Agostinho para que Deus lhe desse a castidade, "mas não já".

A renúncia a prazo, portanto, era antes uma estratégia do que o desdobramento natural de uma realidade ? nas palavras de Brown, o "julgamento sobre mim" expresso nas urnas. Foi uma sentença severa. Os trabalhistas perderam 91 cadeiras no Parlamento de 650 lugares, ficando com 258. Os conservadores conduzidos por David Cameron ganharam 97, chegando a 306 ? 20 aquém do necessário para a maioria absoluta.

Uns e outros passaram a depender da terceira força política britânica, os liberal-democratas, cujo líder, Nick Clegg, foi a estrela da campanha. No entanto, eles terminaram com decepcionantes 57 cadeiras, 5 a menos do que haviam obtido no pleito anterior de 2005. Emergiram, de todo modo, como fiel da balança, cortejados pelos dois mais robustos rivais.

É onde entrou a renúncia futura de Brown. Antes ainda da votação, quando já se delineavam tanto a derrota trabalhista como a insuficiente vitória conservadora, um relutante Clegg acabou admitindo que os liberal-democratas poderiam participar de uma coligação com o Labour, a que se agregariam também os partidos regionais com a sua vintena de cadeiras em Westminster, para formar um governo de maioria ? desde que Brown renunciasse em favor de outro correligionário.

A segunda condição seria o compromisso trabalhista de aprovar a reforma do sistema de voto distrital puro. Nele, o mais votado em cada circunscrição leva tudo. Ao excluir a proporção dos votos recebidos pelos diversos partidos no cálculo para a distribuição das cadeiras no Legislativo, o sistema majoritário distorce a vontade geral do eleitorado e consagra na prática o bipartidarismo.

Nessa eleição, por exemplo, os liberal-democratas colheram 23% dos votos, mas ficaram com apenas 8% das vagas. Já os conservadores, com 36% das preferências, ocuparão 47% dos assentos. No caso dos trabalhistas, os números são 29% e 40%, respectivamente. Não admira que ambos preferiam deixar como estão as regras que os têm beneficiado historicamente. Tangidos, contudo, pela força dos votos, que os deixaram como que nas mãos do Lib-Dem, procuraram um acordo.

Clegg deu prioridade às negociações com os conservadores. Nada mais natural, dada a manifestação das urnas. Criou-se porém uma situação que lembra as excentricidades que se atribuem aos ingleses. Embora os liberal-democratas sejam ideologicamente mais afinados com os trabalhistas do que com os conservadores, e Clegg tivesse aberto anteontem uma segunda frente de diálogo à esquerda, a "aliança progressista" gorou em questão de horas, não ficando claro de imediato por quê.

O desfecho, dizem, pode ter sido a última jogada estratégica de Brown: ele teria preferido entregar aos conservadores de David Cameron, apoiado por Clegg, o cálice envenenado de um governo que deverá combater com um saco de maldades a crise fiscal do Reino Unido, e esperar a recondução dos trabalhistas em 2015 ? se não antes.

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