A segurança dos ciclistas

São animadores os resultados do programa lançado há um ano pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) para melhorar a segurança dos ciclistas na capital paulista. Aumentaram as multas aos motoristas que cometem infrações que colocam em risco os ciclistas e diminuiu o número de acidentes de que estes são vítimas. Mas, para garantir a sua convivência harmônica com os veículos automotores, é preciso que daqui para a frente os ciclistas comecem a fazer a sua parte, não só usando equipamentos de segurança, como respeitando como os demais as leis de trânsito. Infelizmente as autoridades de trânsito não deram até agora nenhum sinal de que estão dispostas a cuidar desse outro lado do problema.

O Estado de S.Paulo

24 Maio 2013 | 02h08

Em média, um motorista vem sendo multado a cada hora por desrespeito a um dos três artigos do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) que, segundo a CET, protegem os ciclistas. No total, foram aplicadas 8.844 multas, de maio de 2012 a março deste ano. Uma tarefa nem sempre fácil para os agentes da CET, porque apenas um daqueles artigos - o 220 - diz respeito diretamente ao caso. Estabelece ele que os veículos automotores, quando forem ultrapassar os ciclistas, devem reduzir a velocidade de maneira a garantir a segurança destes. Curiosamente, ele foi o que menos rendeu multa.

Os demais tratam de questões gerais, como o artigo 169, segundo o qual é punido quem dirigir sem atenção ou sem os cuidados indispensáveis à segurança. O artigo 197, por sua vez, considera infração deixar de deslocar, com antecedência, o veículo para a faixa mais à direita, quando for manobrar.

Como não tratam especificamente dos ciclistas, eles tornam subjetiva a apreciação dos agentes. Mesmo assim, a fiscalização da CET conseguiu reduzir bastante o número de vítimas entre os ciclistas. No ano passado, morreram em média 4 ciclistas por mês. Em janeiro e fevereiro deste ano foram registradas duas mortes.

Para avançar ainda mais, duas outras providências são necessárias. Uma - óbvia - é a criação de ciclovias, pois nada protege mais e permite maior velocidade aos ciclistas do que elas. É incompreensível, por isso, que as autoridades municipais tenham assistido - e mesmo estimulado - à expansão desse meio de transporte, sem investir na construção dessas faixas de circulação exclusiva. O que se fez neste caso foi muito pouco e em geral com fins de lazer.

Agora, o prefeito Fernando Haddad promete construir ciclovias ao longo dos 150 quilômetros dos corredores de ônibus que pretende entregar até o fim de seu governo. Para tornar isso possível, será redesenhado o entorno desses corredores, no qual também serão feitos reforma das calçadas e aterramento da fiação. Se a promessa sair do papel, será um passo importante.

Outra medida indispensável é começar a obrigar os ciclistas a respeitar as regras de trânsito, pelas quais a maioria deles parece ter um solene desprezo, mas que são importantes para sua própria segurança. Porque ocupam pouco espaço, não gastam combustível e são ecologicamente corretos, os ciclistas adotam com frequência uma atitude superior. É grande o número dos que agem como se estivessem acima da lei. Andam na contramão, não sinalizam as manobras que vão realizar, não respeitam os sinais e a faixa de pedestres. Também não usam capacete e circulam sem farol, equipamento essencial durante a noite.

Como se tudo isso não bastasse, ainda andam nas calçadas. Nesse caso, fazem com os pedestres, especialmente idosos e crianças, o que acusam os motoristas de fazer com eles - colocam sua segurança em perigo. É preciso encontrar meios legais para punir os maus ciclistas que agem dessa forma.

Com os graves problemas de trânsito, transporte coletivo e meio e ambiente que enfrenta, São Paulo tem muito a ganhar com a difusão do ciclismo, a exemplo do que já fizeram ou estão fazendo grandes cidades dos países desenvolvidos. Mas para isso é indispensável que os ciclistas cumpram suas obrigações.

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