A Selic não é referência para os juros

A taxa Selic é tida como um indicador cuja função é orientar os bancos na fixação das taxas de juros efetivamente praticadas. Mas a direção indicada por ela, de queda, não sensibiliza muito as instituições financeiras. No momento em que a Selic chega, pela primeira vez, a um dígito, seria de esperar que os bancos levassem em conta essa redução e a acompanhassem.O que se verifica é que as taxas praticadas antes da crise (antes de agosto de 2008) - com a Selic em 13,75% e com a inflação maior do que a atual - eram menores do que agora para as empresas. Ou seja, conclui-se que o papel de referência da Selic não se impõe.Os bancos justificam as taxas atuais pelo aumento da inadimplência, mas não perguntam se isso não seria a consequência óbvia dos juros excessivamente elevados.Deveria existir uma vinculação entre taxa de juros e margem de lucros das empresas. Não se deve esquecer de que, neste momento de afrouxamento das vendas, a rentabilidade das empresas caiu, em razão da redução do poder aquisitivo da população e da valorização do real ante o dólar, que favorece a concorrência estrangeira e reduz as possibilidades de exportações. Ora, apenas a rentabilidade das instituições financeiras é que continua muito satisfatória.Considera-se que o volume do crédito é ainda muito baixo em relação ao PIB no Brasil, porém não se leva em conta o baixo nível da renda per capita da população, que se busca compensar por facilidades de crédito que, na realidade, são dirigidas mais para aumentar os prazos dos financiamentos do que para reduzir os custos de produção.Na formação dos preços, a maior parcela destina-se ao financiamento do prazo das vendas, chegando ao absurdo de que mesmo os pagamentos à vista incluem o custo de financiamento de uma venda com prestações excessivamente alongadas.Assim, os bancos enfrentam uma inadimplência que tem como fontes principais, de um lado, o custo do crédito e, de outro, o do financiamento das vendas a prazo.O governo, com o objetivo de favorecer o consumo das famílias, estimula as vendas a longo prazo, em lugar de incentivar o hábito de poupar para comprar à vista e a preço muito menor os bens desejados.Cabe ao Banco Central fiscalizar melhor os abusos dos bancos e convencer o governo de que o crédito de longo prazo não é a melhor solução para favorecer a demanda.

, O Estadao de S.Paulo

11 de junho de 2009 | 00h00

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