A sociedade superior à política

Muitos eleitores votaram em 3 de outubro com a expectativa de um segundo turno que calibrasse o debate eleitoral e reformulasse o modo como os dois principais candidatos ao Palácio do Planalto se apresentaram ao País. Acreditou-se que com mais tempo de exposição Dilma e Serra disporiam de uma situação que o primeiro turno inviabilizara. Teriam melhores condições de anunciar e detalhar suas propostas, pondo-as frente a frente num confronto substantivo.

Marco Aurélio Nogueira, O Estado de S.Paulo

23 Outubro 2010 | 00h00

No entanto, as três semanas de campanha, até agora, não podem ser comemoradas.

Tudo nela foi decepcionante. Serra e Dilma atuaram como se fossem candidatos a gerente do País. Não contribuíram para que a população compreenda que todo governante é um político, não um técnico ou um pai, muito menos a "mãe" a que Lula se referiu recentemente, dedicada a cuidar de seus filhos. Responde pela gestão pública, mas também coordena inúmeras atividades, zela pela Constituição, toma decisões de impacto coletivo e deve liderar a sociedade mediante um projeto que sirva de guia para a cooperação, o bem-estar e a autorrealização de todos. Em vez de assim se apresentarem, Dilma e Serra abusaram da primeira pessoa, prometeram mundos e fundos, falaram em metas e planos, mas pouco esclareceram.

Foram arrogantes e presunçosos. Não trataram os eleitores como partícipes da ação governamental, mas como espectadores, aos quais, se tudo der certo, serão distribuídos alguns direitos, benesses e vantagens.

Nenhum deles falou em democracia política, por exemplo, a não ser de modo genérico e abstrato. Não se ficou sabendo a que conceito de democracia se associam, que compromissos democráticos concretos estão dispostos a assumir, que tradução prática pretendem dar aos governos democráticos que farão. Elogiaram a democracia e seus valores, é verdade, mas nada além disso. Nem sequer a luta histórica dos brasileiros pela redemocratização veio à tona, só sendo mencionada como detalhe biográfico dos candidatos.

Também não se discutiu política. Nada se falou sobre o sistema político ou de como o futuro presidente lidará com o Estado, a administração pública, os direitos, as liberdades, os parlamentares, os adversários, a política externa e as relações internacionais. Ambos se mantiveram distantes da política: ela seria mais um problema que uma solução. A começar do PT e do PSDB, que mal apareceram. Os candidatos parecem ter concluído que falar em política - mesmo que com P grande - implicaria perda de votos e apoios, que seriam obtidos e consolidados num território alheio à política. Jogaram fora, com isso, excelente oportunidade de ajudar a população a compreender as dificuldades da vida real, a complexidade do ato de governar, a natureza agonística da política. Reduzida no palco do debate a troca de acusações, a política deteriorou-se ainda mais aos olhos do eleitor.

Dilma e Serra são quadros democráticos de qualidade, posicionados em dois pontos distintos, mas convergentes, da social-democracia. Sua biografia conta a favor deles. Têm preparo técnico para governar o País, sabem do que falam e pesam nas respectivas coligações. Como entender que tenham deixado suas campanhas naufragarem num oceano de mediocridade, absurdos e baixarias?

Uma explicação fácil, mas não equivocada, é dizer que cederam passivamente aos apelos do marketing, deixaram-se formatar sem reação, ainda que tenham centralizado as decisões de campanha e controlado seus respectivos staffs de comunicação e propaganda. Prova disso foram os debates de que participaram. Assimilados para constranger e difamar o adversário, pressioná-lo ou desequilibrá-lo, foram politicamente desastrosos e eleitoralmente discutíveis.

Outra hipótese é que ambas as campanhas se tenham deixado sugar pelo novo significado que vem sendo assumido pela política: política como sinônimo de gestão e acesso ao poder, por um lado, e como fardo, esperteza e trucagem, por outro. É um significado que brota da era em que vivemos, movida a globalização, consumo, desconstrução social e individualização, na qual tudo ganha dimensão espetacular e por isso necessita aparecer como espetáculo, mais pelo efeito que pelo conteúdo. Guerra de bastidores, pequenas e grandes agressões, artimanhas oportunistas de teor obscurantista e muito protagonismo paternalista dominaram o drama que se buscou encenar, impossibilitando a discussão aprofundada dos importantes temas que foram postos na mesa, do aborto à questão social, do desenvolvimento à reforma política.

Porém, por mais que se tenha desperdiçado uma chance de ouro para a renovação da política e do discurso eleitoral, o País que sairá do segundo turno não será necessariamente pior. A sociedade resistiu à política de má qualidade exibida pelas duas campanhas. Vetou a lógica plebiscitária e maniqueísta que se tentou imprimir às eleições, mostrou que sabe pensar além de ganhos imediatos e neutralizou a introdução enviesada de temas morais e religiosos, ainda que neste último caso também tenha deixado se excitar parcialmente por eles.

Ainda temos uma semana pela frente e algum fato novo sempre poderá surgir. Mas, salvo acidentes inesperados, a sucessão presidencial será cumprida sem atropelos ou tensões, seja quem for o vencedor. Desse ponto de vista, a sociedade amadureceu. Mostrou ser uma plataforma consistente, que se pode impor. A ruindade do debate, a indigência política das campanhas e as táticas empregadas não impediram que o País enfrentasse com serenidade e espírito cívico o processo eleitoral.

A expectativa, agora, é que a mesma sociedade que soube ser superior aos candidatos consiga processar o declínio político a que estamos assistindo e, com isso, crie condições para que a política renasça e empreste maior qualidade à democracia. Se algo assim vier a acontecer, os eventuais efeitos colaterais da disputa serão amortecidos e desarmados.

PROFESSOR TITULAR DE TEORIA POLÍTICA DA UNESP. E-MAIL: M.A.NOGUEIRA@GLOBO.COM

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