A solidão do Mercosul

O presidente Michel Temer e seu colega argentino Mauricio Macri continuam sem cumprir uma de suas principais promessas de mudança – buscar uma efetiva integração do Mercosul na economia global

O Estado de S.Paulo

15 Janeiro 2018 | 05h00

O presidente Michel Temer e seu colega argentino Mauricio Macri continuam sem cumprir uma de suas principais promessas de mudança – buscar uma efetiva integração do Mercosul na economia global. Mais um ano terminou sem a assinatura do acordo comercial com a União Europeia, a única negociação ambiciosa do bloco desde a liquidação, em 2003, do projeto da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Houve a expectativa, segundo autoridades argentinas e brasileiras, de um acerto final com os europeus em dezembro. Poderia ocorrer em Buenos Aires, como evento paralelo à conferência ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC), ou em Brasília, pouco depois, durante reunião do Mercosul. Não houve entendimento. Se o impasse continuar, o assunto poderá ser empurrado para 2019 ou até para depois.

Os dois lados chegaram perto de um entendimento, no fim do ano passado, mas faltou fôlego para a superação dos últimos obstáculos. Europeus tiveram dificuldades políticas para atender às pretensões sul-americanas em relação ao comércio agrícola. Desta vez, para variar, os governos do Mercosul aparentaram ser os mais dispostos a uma composição. As dificuldades políticas internas da chanceler alemã Angela Merkel abrem espaço à maior influência francesa e, com isso, a tendências mais protecionistas. A passagem da presidência temporária da União Europeia para a Bulgária pode ser mais um fator de maior resistência à abertura do mercado à agropecuária sul-americana.

Mas a conclusão das discussões com a União Europeia é apenas parte, embora muito importante, de um amplo conjunto de possibilidades. Desde o começo do período petista, em 2003, o Brasil e o Mercosul ficaram longe da maior parte das negociações comerciais. O petismo e o kirchnerismo deram prioridade – e quase exclusividade – à Rodada Doha, a maior negociação multilateral da história, e à busca de entendimentos com países emergentes e em desenvolvimento. A Rodada Doha, iniciada em 2001, fracassou. Enquanto dirigentes da OMC e uns poucos países tentavam salvar esse grande projeto, acordos menos ambiciosos multiplicaram-se em todo o mundo. Foram celebrados pactos bilaterais e inter-regionais, enquanto entendimentos de alcance regional surgiam ou se aprofundavam.

Nesse longo período o Mercosul ficou limitado a entendimentos com vizinhos e mais uns poucos parceiros. Prevaleceu a orientação terceiro-mundista implantada no Itamaraty e reforçada pela aliança com o kirchnerismo. Fora da região, houve acordos de livre comércio com Israel, Palestina e Egito, e de comércio preferencial com Índia e União Aduaneira da África Austral.

Enterrado o projeto da Alca, os Estados Unidos deixaram de lado o Mercosul e negociaram acordos bilaterais com vários países latino-americanos. Na América do Sul, já haviam acertado livre comércio com o Chile. Colômbia, México, Peru e Chile formaram a Aliança do Pacífico, um grupo desde o início empenhado em buscar entendimentos com parceiros fora da região. Esses mesmos países já participavam de outros pactos comerciais. O México, além de continuar membro do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), buscou parcerias com europeus.

O Mercosul permaneceu distante dos novos acordos e emperrado internamente, com dificuldades de comércio entre seus membros. Tentativas de expansão levaram a uma aliança inoportuna, agora suspensa, com a Venezuela chavista.

Autoridades brasileiras e argentinas mencionaram, no ano passado, interesse em acordos com Canadá, Austrália e Nova Zelândia. Falta agir. “Não há desenvolvimento econômico e social sustentável sem abertura econômica”, disse há meses o atual ministro interino da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, Marcos Jorge de Lima. Mas o Brasil e seus parceiros do Mercosul continuam entre as economias mais fechadas do mundo. Em países com essa tradição, campanhas eleitorais dificilmente favorecem a discussão de abertura econômica.

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