A sombra da recessão

Mais um dado confirma o péssimo desempenho da economia brasileira no ano passado e reforça a avaliação de um crescimento muito próximo de zero - ou mesmo de um resultado negativo - como gran finale de uma sinfonia de erros. Considerado uma prévia do Produto Interno Bruto (PIB), o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) recuou 0,12% em 2014, último ano do primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff. Esse número é da série isenta de efeitos sazonais. Pelo mesmo critério, o nível de atividade baixou 0,55% de novembro para dezembro, depois de um mês de estabilidade.

O Estado de S.Paulo

16 Fevereiro 2015 | 02h04

Todos os sinais, por enquanto, são de um início de ano em ambiente recessivo, um ponto de partida muito ruim para uma política de arrocho nas finanças públicas. O arrocho monetário já havia começado e será preciso mantê-lo, se se quiser derrubar uma inflação hoje em torno de 7% ao ano, muito distante da meta oficial de 4,5%.

Só no fim de março será publicado o quadro geral das contas nacionais. Qualquer taxa de expansão mais próxima de 1% que de zero será uma surpresa até nos gabinetes mais otimistas de Brasília. Em 2013, o PIB cresceu 2,5%, a segunda maior variação dos últimos quatro anos. Em 2011, o crescimento havia chegado a 2,7%. Em 2012, ficou em 1% e a taxa do ano passado deve ter sido menor, pelo menos segundo as indicações conhecidas até agora.

O primeiro trimestre foi de recessão, com dois trimestres consecutivos de produção em queda. O PIB encolheu 0,2% no primeiro e 0,6% no segundo, de acordo com os dados do IBGE. Do segundo para o terceiro trimestre a economia cresceu 0,1%, quase nada, portanto, mas o suficiente para se declarar findo, em termos oficiais, o período de retração. O IBC-Br aponta nova queda nos três meses finais do ano e um resultado negativo acumulado em 2014.

O Banco Central já havia antecipado uma avaliação sombria ao publicar, no fim de janeiro, o balanço fiscal do ano passado. Pela estimativa incluída no relatório, o PIB em valores correntes chegou a R$ 5,134 trilhões em 2014. Esse número é apenas 5,97% maior que o calculado para o ano anterior. Descontada a inflação média de 2014, a variação real deve ter sido negativa. Isso é compatível com o novo quadro do IBC-Br.

Além disso, as informações parciais disponíveis até agora indicam um balanço ruim para todo o ano, provavelmente com redução do PIB. A produção industrial diminuiu 3,2%, segundo o IBGE, e as vendas do varejo "ampliado", isto é, com inclusão de veículos, componentes e material de construção, foram 1,7% menores que as de 2013. Também o consumo, depois de alguns anos de firme expansão, acabou fraquejando em 2014. O emprego industrial, também de acordo com o IBGE, diminuiu 3,2%. O número de horas pagas na indústria diminuiu 3,9% e a folha de pagamento real do setor encolheu 1,1%. O fim de ano foi especialmente ruim, com emprego 4% inferior ao de dezembro do ano anterior e folha de salários 3,9% menor. Também esses dados parecem combinar com os do IBC-Br.

No trimestre final, o desemprego indicado pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, realizada em cerca de 3.500 municípios, ficou em 6,5% da força de trabalho, pouco acima do apurado nos últimos três meses do ano anterior, de 6,2%. A média do ano chegou a 6,8%. São números piores que os de várias economias desenvolvidas e emergentes. Além disso, as demissões na indústria comprometeram, como nos dois anos anteriores, a qualidade do emprego. A inflação elevada e resistente, o endividamento das famílias e a alta dos juros acabaram também freando o consumo.

Com a inflação correndo na faixa de 7% ao ano e as contas públicas em muito mau estado, o governo dispõe de pouco espaço para estímulos de curto prazo. Será preciso apertar as contas públicas e manter os juros elevados. Além do mais, crescimento mais veloz dependerá de ganhos de produtividade e, portanto, de mais investimentos públicos e privados. Para isso será preciso consertar a gestão pública e recompor a credibilidade da política econômica. Não haverá lugar para complacência nos próximos meses.

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