A sucessão no FMI

Um escândalo sexual precipitou a batalha entre europeus e emergentes pela chefia do Fundo Monetário Internacional (FMI), uma instituição com 187 países-membros e um papel de primeira linha, até agora, no enfrentamento da maior crise econômica dos últimos 80 anos. A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, rejeita qualquer mudança, neste momento, do critério de sucessão seguido por mais de seis décadas. Em termos de princípios a discussão começou há alguns anos, mas sem produzir, até agora, efeitos práticos. A escolha do próximo diretor-gerente só deveria ocorrer dentro de alguns meses, quando o francês Dominique Strauss-Kahn se afastasse, como era previsto, para concorrer à presidência de seu país. Nenhum dos interessados na escolha do sucessor estava mobilizado para o combate. Afinal, dificilmente alguém poderia prever a prisão do executivo, em Nova York, sob acusação de abuso contra uma camareira de hotel.

, O Estado de S.Paulo

23 Maio 2011 | 00h00

A proposta de um novo critério para a escolha do diretor-gerente já foi aceita, formalmente, pelo Comitê Monetário e Financeiro, o órgão político mais importante do FMI. O comitê, formado por 24 ministros de todos os cantos do mundo, formula orientações em nome de todos os países sócios. Até a eleição de Strauss-Kahn, em 2007, foi seguido um padrão informal estabelecido pelas grandes potências quando foram criados o FMI e o Banco Mundial, no fim da 2.ª Guerra. O Fundo seria sempre dirigido por um europeu. O Banco, por um americano.

O novo critério discutido há alguns anos e reafirmado na reunião do mês passado, em Washington, subordina a escolha dos dirigentes a requisitos de capacidade profissional e política, sem referência à origem - de países desenvolvidos, emergentes ou em desenvolvimento. Dificilmente uma proposta com especificações desse tipo seria aprovada. O próprio Strauss-Kahn teria assumido recentemente, segundo se informou nos últimos dias, o compromisso de apoiar a eleição de um sucessor não europeu.

Mas governantes da Europa preferem deixar para mais tarde o cumprimento desse compromisso. Angela Merkel certamente expressou a opinião das autoridades de toda a União Europeia, ao rejeitar a mudança de critério na eleição do próximo diretor-gerente. Ela e outros europeus têm usado um curioso argumento para defender seu ponto de vista: a crise na Europa torna indispensável a manutenção do velho critério. Se esse argumento tivesse algum sentido, ninguém teria sido mais adequado para o posto do que um latino-americano nas décadas de 70 a 90.

O governo brasileiro tem defendido a escolha de algum nome originário do mundo emergente. O ex-chanceler Celso Amorim sustentou essa posição numa entrevista ao jornal francês Les Echos. Mas, curiosamente, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, admitiu, segundo a Folha de S.Paulo, a hipótese de apoiar um nome do mundo rico, se isso favorecer a continuação da política reformista de Strauss-Kahn. Nenhum dos possíveis candidatos do mundo emergente parece agradar ao ministro Mantega.

Se ele estiver, de fato, disposto a apoiar a eleição de quem pareça reunir ousadia, liderança e competência técnica, sem levar em conta sua origem, o governo brasileiro agirá com sensatez. O grande problema neste momento é encontrar alguém capaz de continuar o trabalho realizado por Strauss-Kahn.

A ministra de Economia da França, Christine Lagarde, tem mostrado competência política e visão técnica. Dentre os possíveis candidatos do mundo emergente, o ex-ministro turco Kemal Dervis parece destacar-se. Mas é preciso levar em conta, na escolha, o peso político de cada um e sua capacidade de articular e de se fazer ouvir.

Strauss-Kahn fez muito para restabelecer a importância do FMI mesmo antes do agravamento da crise. Agora, na reconstrução do sistema financeiro, funções de grande relevância - de supervisão, por exemplo - estão previstas para a instituição. Capacidade para continuar esse trabalho é a qualidade necessária ao sucessor. O resto é retórica de centro acadêmico.

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