A sucessão presidencial e seus riscos

Era para ser uma eleição disputada com bola murcha, diante da descrença generalizada do eleitorado na política. Os scripts dos principais candidatos, todos empenhados em apresentar argumentos sistêmicos sobre o estado atual da nossa economia e o que fazer para projetá-la à frente, não pareciam ter o condão de precipitar uma competição eleitoral que viesse a inflamar a atenção da opinião pública. Esperava-se uma disputa morna e vazada em termos racionais. Para isso também conspiravam o perfil e o histórico dos três principais candidatos, Dilma Rousseff, Aécio Neves e Eduardo Campos, uma presidente disputando uma reeleição em defesa de suas práticas governamentais e dois jovens ex-governadores bem avaliados em seus Estados, todos personalidades não carismáticas, formadas politicamente no terreno da gestão em administração pública.

Luiz Werneck Vianna, O Estado de S. Paulo

20 Setembro 2014 | 02h12

Nesse cenário, não estaria equivocado quem a identificasse como uma competição eleitoral travada sob o signo da previsibilidade, diante da crença de que se tinha pela frente uma eleição em dois turnos - estilo das imediatamente anteriores -, cálculo reforçado pela candidatura de Eduardo Campos, recém-saído da coalizão governamental de que tinha sido um dos esteios. Quase consensualmente, admitia-se que caberia a Dilma vencer no primeiro turno. Eduardo Campos, pouco conhecido fora de sua região, o mais jovem dos opositores, parecia apostar mais na sucessão presidencial seguinte, enquanto Aécio contava com uma campanha que o credenciasse para o segundo turno como o melhor intérprete da insatisfação reinante com o atual governo.

As tramoias do destino, com a tragédia que vitimou Eduardo Campos, viraram, como se constata, de ponta-cabeça o cenário previsto para a competição, com o retorno à cena política da assombração do carisma, agora de saias, na pessoa da candidatura de Marina Silva, com sua história pessoal de superações e seu sobrenome tão comum aos "simples", com o dom de aliciar, por si só, empatia no mundo popular. Sua aparição, com seu discurso desconforme a "tudo isso que aí está" em nossas práticas políticas, trouxe de novo à ribalta o espírito dos idos de junho de 2013, que jazia embaixo do tapete, estranho aos discursos das três candidaturas originais, que tinham selecionado como mote os temas econômicos.

Invocados os sentimentos difusos em favor de "uma nova sociedade" e de uma "nova política", que tinham encontrado vocalização naquelas inéditas manifestações, logo acabaram por encontrar em Marina, tanto por sua figura não convencional quanto pelo discurso que adotou, o seu natural portador. Junho de 2013, para tantos um episódio remoto, passou a participar da sucessão presidencial. Tal identificação projetou-a meteoricamente nas pesquisas eleitorais, salvo outras intervenções do Sobrenatural de Almeida, para a disputa no segundo turno. A economia foi obrigada a compartilhar seu tradicional lugar de primazia na campanha eleitoral com razões de outras procedências, deslocando Aécio, que, preparado para outro tipo de embate, não teve condições de reciclar seu discurso. Restou-lhe, ao menos até aqui, a dignidade de permanecer fiel ao seu programa e à sua história.

O debate entre os candidatos, sem desconhecer as questões econômicas, passou a gravitar em torno de um elenco novo de questões, com ênfase especial nos temas políticos - nosso degradado presidencialismo de coalizão foi chamado à berlinda - e nas questões de fundo ético-moral, estas últimas, desta vez, sem serem desqualificadas sob a designação de moralismo vazio. Outros ecos de junho de 2013 também se fizeram ouvir, como nas discussões sobre a necessidade de ampliar a esfera pública a partir de mecanismos de participação popular. A agenda do moderno de algum modo se infiltrou nos debates eleitorais, reduzindo o papel tradicionalmente ocupado pelas políticas de modernização e pelo papel do Estado na condução da economia, aliás, em defensiva em muitos dos seus momentos.

Bem antes do seu desenlace em outubro, estas eleições, qualquer que seja o vitorioso nas urnas, já nos deixam resultados tangíveis. O principal deles está na confirmação de que a via régia para as mudanças reclamadas difusamente pelas ruas se encontra nas instituições da democracia política, cujo aperfeiçoamento se tornou imperativo. Um longo ciclo, de Fernando Henrique Cardoso aos governos do PT, em que o moderno vem tendo de pagar pedágio às forças do atraso e às tradições do mando oligárquico, calculando e moderando cada passo com vista a manter sua coalizão com ele, já esbarrou nos seus limites.

Este ciclo encontra quem o defenda na presente competição eleitoral e a coalizão política, que ainda preconiza a sua continuidade, parece ser a favorita para vencê-la. Mas está exangue e tem contra si, a esta altura, uma consciência crescente por parte da população dos seus efeitos perversos sobre a vida social e a política. Nesse sentido, com a sociedade alinhada em direção oposta, consiste numa política de alto risco conceder mais uma oportunidade a ela.

Aécio e Marina têm exercido um papel pedagógico na denúncia dessa política desastrada, que a tudo sacrifica em nome de uma governabilidade cuja razão de ser é manter tudo isso que aí está. Decerto que uma ética de responsabilidade não pode desconhecer as circunstâncias inóspitas em que atua. Contudo, se ela abdica de valores éticos, degrada-se em pragmatismo estéril se não souber preservar valores de convicção diante dos valores de sucesso, tal como sinaliza, em sua interpretação de Weber, Wolfgang Schluchter em seu clássico Paradoxos da Modernidade (Unesp, 2010). Os riscos, na situação atual, para os governantes que não desertam de suas convicções são bem menores do que seguir adiante com as práticas degradadas que ora nos arruínam.

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PROFESSOR PESQUISADOR DO DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS DA PUC-RIO

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