A taxa Selic não faz milagres

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre a Selic não representa adesão das autoridades monetárias a uma política keynesiana nem significa ceder às pressões do governo.Mostra que o Copom não está insensível à evolução da conjuntura, mas sem deixar de considerar a grande responsabilidade do controle da inflação.O Banco Central nunca deixou de alertar que a política monetária surte efeitos a longo prazo e que não tem a ilusão de que essa medida vai tirar o Brasil da recessão. No máximo, obriga moralmente os bancos a reduzir suas taxas de juros, embora uma redução da Selic de 1,5 ponto possa representar perda para eles. Na realidade, a vantagem da redução da Selic é a diminuição do custo do serviço da dívida interna nos títulos a ela indexados. Trata-se, talvez, do maior efeito da decisão do Copom, que assim está dando o exemplo ao governo, que deveria cortar com mais coragem seus gastos de custeio. No entanto, esse efeito terá uma amplitude significativa apenas se o processo de redução continuar. Nesse sentido, deu-se grande importância ao comunicado final da reunião, que deixa claro que o Copom continuará a observar com cuidado a evolução da inflação para definir "os próximos passos na sua estratégia de política monetária". Poder-se-ia pensar que, à luz do IPCA de fevereiro, o Copom deveria se preocupar com a trajetória da inflação,pois os preços parecem resistir, mais do que em outros países, aos efeitos da queda da demanda. Deve ser assinalado que, mesmo levando em conta o fato de que no Brasil ainda há preços indexados, e que o preço dos derivados, apesar da queda do petróleo no mercado internacional, foi mantido, o Copom considerou com razão que a alta do IPCA dependeu em boa parte de fatores sazonais (aumento do custo da escolaridade, por exemplo). Assim, é justo pensar que os indicadores de preços ainda vão baixar.Não cabia ao Copom assumir compromisso pela continuidade da queda da Selic, num contexto mundial totalmente incerto e, mais ainda, levando em conta as dificuldades que nosso governo está enfrentando por falta de "savoir faire". Tudo indica, porém, que o Copom continuará a reduzir a taxa básica de juros, mas com a cautela necessária.Não lhe cabe ceder às pressões das entidades de classe sabendo que a redução da Selic não é milagrosa, e que outras medidas são necessárias para enfrentar a recessão, notadamente, na área fiscal.

, O Estadao de S.Paulo

13 de março de 2009 | 00h00

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.