A tragédia do Haiti

Passado um ano do terremoto que devastou a capital do Haiti, Porto Príncipe, e outras cidades do interior, o vergonhoso fracasso da comunidade internacional - governos, organismos multilaterais e 12 mil ONGs - na tarefa de aliviar o sofrimento dos 9,8 milhões de habitantes desse país paupérrimo exibe uma distância abissal entre o sentimento de solidariedade humana manifestado diante do infortúnio alheio e a capacidade de traduzi-lo em políticas consistentes de socorro aos desafortunados.

, O Estado de S.Paulo

13 Janeiro 2011 | 00h00

A intensidade do sismo - de 7,3 na escala Richter - ficou aquém dos 10 maiores cataclismos do gênero, a contar de 1950. Ainda assim, o tremor matou cerca de 230 mil haitianos, feriu 300 mil, destruiu perto de 190 mil edificações e deixou ao desabrigo 1,5 milhão de pessoas. Destas, mais de 800 mil, das quais 380 mil crianças, vivem acampadas em 1.150 barracas, numa situação de penúria e exposição a doenças que perpetuam, quando não agravam, os efeitos da catástrofe natural de janeiro de 2010. Dez meses depois do terremoto, por exemplo, uma epidemia de cólera atingiu 170 mil haitianos, dos quais 3,6 mil pereceram.

"A reconstrução pode levar de 10 a 15 anos", prevê o subdiretor de programas humanitários da Cruz Vermelha, sediada na Suíça. Pode levar isso, ou de 15 a 20, mas a partir do dia em que for efetivamente iniciada.

Por enquanto, nem o dinheiro oficialmente doado está chegando. Dos US$ 4 bilhões que o mundo doou ao Haiti, menos de 25% alcançaram o destino. "É uma vergonha", deplora a porta-voz do escritório da ONU responsável pela coordenação do auxílio internacional, Elisabeth Byrs. "Não temos como tratar das vítimas do cólera por falta de dinheiro."

A penúria coexiste com a confusão. Foi lançado 1,4 mil projetos de reconstrução, que não conversam entre si. O resultado pode ser medido na escala puramente física das coisas. Dos 10 milhões de metros cúbicos de entulho produzidos pelos desmoronamentos, apenas entre 5% e 10% foram removidos. Faltam máquinas porque o governo, ou o que resta dele, insiste em cobrar impostos sobre os equipamentos trazidos do exterior. Em consequência, também falta espaço para erguer novas habitações e edificações públicas. Faltam, aliás, funcionários: 1 em cada 5 morreu no sismo.

Transferir os desabrigados para o interior não é uma solução: salvo exceções, inexistem ali sistemas de saúde e saneamento, escolas e luz elétrica. Se Porto Príncipe é um horror, o resto é sinônimo de miséria absoluta. Uma funcionária da Organização Mundial da Saúde (OMS), Fadela Chaib, revela que "em alguns pontos da zona rural, mais de cem novos casos de cólera são detectados por dia", sinal de que a epidemia ainda está muito longe de completar o seu ciclo. As chances de ela se transformar em endemia são cada dia maiores. Em meio às tragédias encadeadas, não poderiam faltar as trevas da política.

No domingo próximo deve realizar-se o segundo turno da eleição presidencial. Ocorre que os resultados oficiais - que deram 31,3% dos votos à candidata opositora Mirlande Manigat, 22,5% ao candidato governista Jude Celestin, genro do atual presidente René Préval, e 21,8% ao espalhafatoso cantor Michel Martelly - foram rejeitados não apenas pelos derrotados, como também pelos observadores internacionais, a começar dos enviados da Organização dos Estados Americanos (OEA). Relatório da entidade sustenta que Martelly teve mais votos do que Celestin e deveria disputar a rodada final.

Nas circunstâncias, as denúncias de fraude, que provocaram uma onda de violentos protestos em todo o país logo depois do primeiro turno, são até o de menos. Uma ONG americana, depois de conduzir um estudo exaustivo sobre o pleito, concluiu que praticamente 4 em cada 5 eleitores não conseguiram votar, ou porque não encontraram os seus nomes nas listas afixadas nos postos eleitorais, ou porque perderam os seus títulos no terremoto. Apesar da abnegação de todos quantos tentam ajudar os haitianos a criar um amanhã, não há esperança de qualquer melhora em futuro previsível.

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