A trégua da inflação

O brasileiro pode festejar uma rara boa notícia no meio da crise econômica: a inflação recuou no mês passado, quando o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 0,43% e a alta acumulada em 12 meses caiu para 9,39%, ficando abaixo de dois dígitos pela primeira vez desde novembro do ano passado. Além disso, o aumento mensal foi o mais baixo em um mês de março desde 2012, quando a taxa ficou em 0,21%. Mas é bom celebrar com moderação e sem ilusões quanto ao resultado final deste ano. Os preços continuam subindo rapidamente, apesar da recente perda de impulso. Será muito difícil fechar 2016 com uma taxa inferior ao limite de tolerância, de 6,5% ao ano. A melhora observada no mês passado resultou principalmente do recuo dos preços monitorados, como taxas de água e esgoto e tarifas de transporte urbano e de energia elétrica. Alguns desses componentes subiram muito no ano passado, depois de comprimidos politicamente por longo período.

O Estado de S. Paulo

09 Abril 2016 | 03h00

O conjunto dos itens monitorados saiu de uma alta de 0,39% em fevereiro para uma queda de 0,36% em março. No caso da conta de luz, o recuo já havia começado. A tarifa residencial diminuiu 2,16% em fevereiro e encolheu mais 3,41% no mês passado. No caso do metrô, a mudança foi de uma alta de 2,05% no mês anterior para variação zero em março. Depois de anos de compressão de preços e tarifas de itens sujeitos a controle, a correção pressionou fortemente os índices durante um ano. A acomodação agora observada traz uma sensação de alívio. Apesar disso, a alta desse conjunto de preços em 12 meses continuou mais alta do que a média: ficou em 10,80% no período terminado em março. Mas esse número até parece moderado, quando se leva em conta o pico de 18,08% nos 12 meses terminados em dezembro.

De toda forma, seria um erro tomar essa nova mudança como indício de arrefecimento geral e duradouro das pressões inflacionárias.

Na economia brasileira, como em qualquer outra, há sempre movimentos de ajuste de preços para cima e para baixo.

Para o mês de abril já se fala, por exemplo, em pressão dos medicamentos para cima, compensada por mais alívio da energia elétrica.

Também se espera impacto do fim do programa de bônus da Sabesp para quem reduzir o consumo de água. Mas há uma diferença enorme entre essas oscilações de preços e as pressões inflacionárias ou desinflacionárias. 

No caso do Brasil, a principal pressão desinflacionária continua sendo a recessão. Com desemprego na vizinhança de 10%, perda de renda familiar, juros altos e muita insegurança quanto às condições do País neste e no próximo ano, os consumidores continuarão mais cautelosos e pouco propensos a se endividar para novas compras. O câmbio também afetará a formação dos preços internos, mas o efeito da variação do dólar dependerá, em boa parte, das condições do mercado interno. 

Enfim, o principal desajuste da economia nacional, o desequilíbrio das contas públicas, continuará afetando as condições da demanda e pressionando os preços para o alto. Formalmente, o governo continua buscando neste ano um superávit primário (sem a conta de juros) de cerca de R$ 24 bilhões. Apenas formalmente, porque ainda falta a aprovação do Congresso à nova meta definida pelos Ministérios da Fazenda e do Planejamento.

A meta “flexível” agora pretendida pelo governo permitirá um déficit de até R$ 96,65 bilhões em 2016. Também para 2017 há pouca esperança de um resultado fiscal positivo ou mesmo equilibrado. O Executivo deverá mandar ao Congresso, ainda neste mês, a proposta de Lei de Diretrizes Orçamentárias para o próximo ano. O projeto deverá incluir uma provisão de descontos para redução da meta primária.

Ninguém pode esperar para 2016 alguma iniciativa séria de contenção de gastos. Além disso, a hipótese de alguma austeridade no próximo ano também se torna menos provável a cada dia. À vocação do governo para a gastança é preciso acrescentar o leilão de votos no mercado do impeachment.

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