A turba ataca em Teerã

No Irã dos aiatolás, só há dois tipos de manifestações de protesto. Aquelas que a teocracia reprime com brutalidade, como as que, em um desafio sem precedentes, tomaram as ruas de Teerã em meados de 2009 para denunciar a fraudada reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad. E aquelas que o regime apoia, quando não incentiva, como acaba de acontecer agora, para manter aceso o ódio aos inimigos que abomina - o "ente sionista" (Israel), o "grande Satã" (Estados Unidos) e o "pequeno Satã" (Reino Unido).

O Estado de S.Paulo

01 Dezembro 2011 | 03h06

Destes, o único alvo físico ainda disponível no país são as imponentes edificações da missão diplomática britânica, no coração da capital iraniana - famosas por sediar em 1943 a conferência em que os líderes aliados Franklin Roosevelt, Winston Churchill e Josef Stalin planejaram as etapas finais da guerra contra a Alemanha nazista e o Japão. Anteontem, as dependências, em tese protegidas por acordos internacionais, foram invadidas e saqueadas por uma turba de 300 a 400 "estudantes", na realidade membros da milícia Basij, ligada ao aiatolá Ali Khamenei.

A própria televisão iraniana mostrou que forças dos serviços de segurança assistiram, impassíveis, às cenas de vandalismo. Levou horas até que agentes em trajes de combate, porém contrafeitos, retirassem os agressores. O ultraje lembrou de imediato a ocupação da embaixada americana em Teerã por uma horda xiita, logo em seguida ao advento do Estado policial-clerical que se autodenominou República Islâmica, em 1979. Os invasores mantiveram 52 funcionários reféns durante 444 dias.

A violência contra a representação do Reino Unido, condenada em termos duros pelo Conselho de Segurança da ONU, foi a resposta dos ultrarradicais do regime à decisão do governo do primeiro-ministro David Cameron, na semana passada, de impor ao Irã severas sanções econômicas, em decorrência das conclusões da AIEA, o fiscal nuclear das Nações Unidas, de que o país está no limiar de produzir a bomba atômica. Ao determinar o congelamento de todos os contatos com o Banco Central iraniano, Cameron foi mais longe nisso do que os próprios Estados Unidos.

Na segunda-feira, o Parlamento de Teerã "exigiu" a expulsão do embaixador Dominick Chilcott, por sinal instalado há bem pouco tempo na capital, enquanto o aiatolá Khamenei fulminava a "arrogância" do Reino Unido, com o seu histórico de "humilhar nações, destruir as suas culturas e apossar-se de seus recursos". Não é de agora que a maioria dos iranianos odeia os britânicos - pela derrubada, em 1951, do primeiro-ministro Muhammad Mossadegh, que nacionalizou a petrolífera anglo-iraniana, e por seu apoio ao governo tirânico do xá Reza Pahlevi, nos anos 60 a 70.

Em 1987, quando o Irã acusou a Grã-Bretanha de apoiar o Iraque com o qual estava em guerra, o encarregado de negócios Edward Chaplin chegou a ser agredido por membros da Guarda Revolucionária. Pouco depois, Londres determinou a retirada de todo o seu pessoal em Teerã. Repetiu a decisão ontem, ao fechar a sede da representação e o conjunto onde residiam os seus 26 funcionários, e dar 48 horas para o Irã fazer o mesmo na capital britânica.

O chanceler do Reino Unido, William Hague, descartou o rompimento formal de relações. Isso aconteceu, por iniciativa britânica, depois do decreto religioso que condenou à morte, em 1989, o escritor anglo-indiano Salman Rushdie por sua obra Os versos satânicos, considerada blasfema pelos aiatolás. Os dois países reataram apenas em 1998. Desta vez, Londres prefere deixar entreaberta uma fresta de diálogo com o governo Ahmadinejad, cuja chancelaria emitiu um incomum pedido de desculpas pelo ataque de anteontem.

Especula-se que o episódio faz parte de uma prolongada batalha pelo poder entre o grupo do presidente e as alas mais conservadoras do regime. Por incrível que pareça, Ahmadinejad estaria inclinado a reduzir as tensões com a comunidade internacional. Quanto à linha dura, parece claro que procura chegar a um confronto com o Ocidente, na esperança de acuar os sobreviventes da oposição interna e galvanizar as ruas de Teerã, fazendo-as distanciar-se das influências liberalizantes da Primavera Árabe.

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