A Ucrânia de Putin

A resposta militar do governo ucraniano à ocupação de instalações públicas em uma dezena de localidades do leste do país por separatistas pró-Rússia - ou "terroristas", segundo Kiev - foi recebida em Moscou como a antevéspera do apocalipse. "Novamente correu sangue na Ucrânia", clamou nas redes sociais o primeiro-ministro Dmitri Medvedev. "A ameaça de guerra civil assoma."

O Estado de S.Paulo

17 Abril 2014 | 02h08

Descontada a retórica, parte da atordoante campanha de propaganda desencadeada pelo Kremlin, o fato é que depende acima de tudo do autocrático presidente Vladimir Putin o desenrolar do conflito na região industrial onde a parcela da população de etnia russa beira, em alguns casos, 40%, como nas províncias de Donetsk (4,3 milhões de habitantes) e Lugansk (2,2 milhões).

Não é propriamente à sua revelia que, além de exortações patrióticas, Moscou envia armas aos ativistas e paramilitares. Sem falar que, apesar dos protestos ocidentais, 40 mil soldados das forças regulares russas permanecem acantonados, "em treinamento", do outro lado da fronteira. As tensões se intensificaram nas áreas russófonas da Ucrânia a partir da secessão da Crimeia, no mês passado.

Em represália à deposição do presidente ucraniano pró-russo Viktor Yanukovich e em seguida a um referendo cujo resultado era absolutamente previsível - afinal, a Crimeia só mudou de bandeira ao ser presenteada, em 1954, à então República Socialista Soviética da Ucrânia -, Putin anexou a península à Federação Russa.

Foi a deixa para avivar as demandas autonomistas das regiões vizinhas, sob a alegação de que a irrupção, em Kiev e outros centros do oeste do país, do movimento pela derrubada de Yanukovich, consumada em fevereiro, incentivara os nacionalistas ucranianos a promover uma campanha de ameaças e perseguições às populações etnicamente russas.

Em um dos seus primeiros atos, por sinal, o Parlamento sob nova direção revogou a lei que oficializara o russo como segundo idioma nacional. Mas, sob pressões internas e externas, os legisladores logo trataram de desfazer o malfeito.

No mais, a julgar por um relatório do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, "embora tenham ocorrido ataques à comunidade étnica russa, não foram nem sistemáticos nem disseminados". O texto considerou "falso" o clima de medo que se criou - e que as autoridades russas continuam a insuflar.

Mas até onde é possível identificar os cálculos de conveniência de Putin, não há de estar em seus planos incorporar à Rússia os territórios do leste ucraniano, com seus empobrecidos 14 milhões de habitantes.

A conta seria alta demais, em sentido literal e figurado, mesmo para as ambições imperiais do dirigente moscovita. O que ele quer, embora não o diga com todas as letras, é cercar de tantas turbulências quantas conseguir a eleição presidencial ucraniana marcada para 25 de maio, a fim de solapar a sua legitimidade e enfraquecer seja lá quem vencê-las.

Isso, porém, é antes um meio do que um fim - e este Putin já deixou claro. Trata-se de transformar a Ucrânia de Estado unitário em federação. A mudança seria formalizada na Constituição que o governo interino de Kiev, chefiado pelo presidente nomeado Oleksandr Turchinov, prometeu desde a posse, mas sem marcar data.

Seria o melhor dos mundos para o Kremlin. Numa Ucrânia federativa, os fortalecidos governos e câmaras das províncias orientais tenderiam a cair em mãos de partidos filorussos. Como verdadeiros protetorados, elas seriam mais leais a Moscou do que a Kiev - não a ponto, porém, de dispensar as transferências financeiras do poder central.

Estão em jogo mais do que afinidades culturais e históricas. Boa parte da economia regional vive em função do mercado russo. Aliás, 25% das exportações da Ucrânia vão para a Rússia. De seu lado, embora concorde com os pleitos do leste por mais autonomia, Turchinov defende uma consulta popular sobre a configuração do país e aposta numa Ucrânia "unificada, indivisível, independente e democrática".

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.