A última e a próxima taxa do PIB

O produto interno bruto (PIB) brasileiro é também avaliado trimestralmente. Sua última variação, do trimestre passado, mostrou aumento de 1,5% relativamente ao primeiro trimestre do ano. Para ter uma ideia da bondade dessa notícia, se a mesma taxa se repetisse por mais três trimestres, levaria a um crescimento de 6,14% em 12 meses, hoje considerado impossível por 100% dos economistas brasileiros e estrangeiros de olho neste país.

Roberto Macedo *, O Estado de S.Paulo

05 Setembro 2013 | 02h05

O resultado surpreendeu até o ministro Guido Mantega, que previa crescimento perto de 1% no trimestre. Dada a taxa 50% maior, ele se empolgou e disse: "O pior já passou. O fundo do posso foi superado (...)".

Infelizmente, o pior ainda não passou. Fundo de poço? Discordo, pois a economia não afundou em lugar algum. A taxa do PIB deste ano deve continuar positiva, ainda que medíocre, pois previsões mais recentes a calculam entre 2% e 2,5%. Nossa economia lembra mais um avião sem potência para voar mais alto e sujeito a turbulências ao passar pelas muitas nuvens ainda presentes no cenário econômico interno e no externo.

Antes de prosseguir, devo dizer que sou da turma do quanto melhor, melhor. Quem me lê ou ouve sabe que muitas vezes critico o governo federal e sua política econômica. Mas já me entusiasmei com ela, como no período em que buscou reduzir a taxa básica de juros e estes em geral. Mas, infelizmente, ele não sustentou essa política, expansiva da demanda, com política fiscal na direção contrária. Resultado: mais inflação e retorno a sucessivos aumentos da taxa básica de juros.

Também me entusiasmei quando a presidente anunciou, em agosto de 2012, um grande programa de expansão de rodovias e ferrovias via concessões ao setor privado, mesmo que turbinado por participações e financiamentos estatais. Contudo esse anúncio fez seu primeiro aniversário com lamentações pelo estado de saúde do programa, que ainda não deslanchou.

A próxima taxa do PIB, a deste trimestre, deverá vir perto do final de novembro, mas vários dados dos seus dois meses já passados, juntamente com outras percepções de grande número de analistas, indicam a perspectiva de turbulência nesse período.

Merece destaque a situação da indústria. Seu produto havia crescido 2% no segundo trimestre e contribuído fortemente para a referida taxa de 1,5% do PIB como um todo. Mas, conforme o IBGE revelou anteontem, a produção industrial caiu 2% em julho. Olhando taxas mensais do desempenho do setor, vi que oscilaram entre negativas e positivas perto de 2%. Neste ano foram positivas em janeiro, março, abril e junho; negativas em fevereiro, maio e julho. Soube ainda de sinais de acumulação indesejável de estoques na indústria, que pode ser prenúncio de menor ritmo de produção.

A agropecuária, que também atuou para a "salvação da lavoura" do PIB no segundo trimestre, com sua produção então subindo 3,9%, agora, neste terceiro, ingressou em período de entressafra agrícola. A agropecuária tem pequena participação no PIB, perto de apenas 5%. Mas o agronegócio, no total, tem cerca de 22%, com o que o impacto da agropecuária se expande, como na indústria. Por exemplo, a produção de tratores de rodas aumentou 18,3% e a de colheitadeiras, 19,4%, nos primeiros seis meses do ano relativamente a igual período de 2012, segundo a associação que reúne seus fabricantes, a Anfavea. Esse ímpeto deverá diminuir, pois a safra vindoura deverá ter crescimento menor que a de 2013, que foi recorde e comparada à de 2012, ano em que foi ruim.

Quanto à taxa de câmbio, teve sensível aumento e levará a um efeito inflacionário que o Banco Central provavelmente enfrentará com mais aumentos da taxa básica de juros. Ele restou como único guardião do poder aquisitivo da moeda, já que a área fiscal do governo atua na contramão. Além do aumento, a taxa cambial mostra-se volátil.

Se o leitor fosse um empresário ou consumidor afetado negativamente pela taxa de câmbio e pela de juros, como reagiria diante dessas circunstâncias? Por essa razão, além de outras, índices de confiança de consumidores e empresários mostraram queda nos últimos meses, com danos à disposição de investir e consumir.

Passando ao mercado de trabalho, há meses o formal mostra menor dinamismo na geração de empregos. E há o índice de desemprego do IBGE, que abrange também o informal das seis maiores regiões metropolitanas. Ora, taxas mensais desse índice para o conjunto dessas regiões ultrapassaram seus valores no ano anterior em junho e julho passados. Essa ultrapassagem não era observada desde 2009, quando a crise econômica mundial que eclodiu em 2008 mostrou seus efeitos mais fortes. Felizmente, as taxas de desemprego são hoje menores, mas a perspectiva não é mais de queda.

O que fazer? Há economistas que só se preocupam com a estabilização da economia diante de turbulências fiscais, inflacionárias e cambiais. Os que se preocupam também em fazê-la crescer, para aumentar a potência do avião a que me referi e fazê-lo voar mais alto, propõem que tudo seja feito para aumentar a taxa de investimentos da economia. Particularmente quando os estímulos que vêm de fora e da expansão do crédito interno são muito menores do que em meados da década passada.

Mas temos um governo federal que arrecada demais, investe pouquíssimo e está mais centrado em medidas populistas de cunho eleitoreiro. Assim, fica sem recursos e cabeça para mais investimentos públicos em infraestrutura física e social, esta como no transporte urbano de passageiros. Muito dos investimentos que faz não andam, e não consegue deslanchá-los mesmo convocando o setor privado para concessões e parcerias público-privadas. Enquanto não reverter esse caminho, o avião da economia continuará voando baixo e sujeito a turbulências como as que neste trimestre já se delineiam no radar.

*Roberto Macedo é economista (UFMG, USP e Harvard), professor associado à FAAP e consultor econômico de ensino superior.

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