A Unesp, 36 anos depois

À memória do professor José Ênio Casalecchi (1939-2012), cujo legado honra uma geração

Marco Aurélio Nogueira, professor titular de Teoria Política e diretor do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais da Unesp, O Estado de S. Paulo

25 Fevereiro 2012 | 03h06

Quando a Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp) foi criada, em 1976, poucos acreditavam que daria certo. A organização de uma instituição universitária digna do nome a partir de faculdades isoladas distribuídas por 15 cidades do interior paulista parecia desafio impossível de ser vencido. Fugia das tradições acadêmicas brasileiras e não tinha modelos para seguir. Além do mais, o clima geral do País - estávamos no auge da ditadura militar - hostilizava a vida intelectual, esteio da organização acadêmica que se pretendia.

Os primeiros anos foram difíceis, marcados por muitas arbitrariedades. Havia, porém, uma base de onde partir, fornecida pelas faculdades que se reuniam na nova estrutura e estavam solidamente estabelecidas. A ideia-força era consolidar o que se tinha para então interiorizar a universidade. O esforço confundia-se com a expectativa de democratização do País, ganhando fôlego e impulso com ela.

O primeiro reitor organicamente vinculado à comunidade acadêmica, Jorge Nagle, foi escolhido no momento (1984-1985) em que o regime militar se decompunha, às portas da Nova República. Foi nesses anos emblemáticos que a Unesp ganhou seu primeiro sopro de identidade e começou a se reconhecer como tendo direito de existência, sem sentimento de inferioridade em relação a outras universidades.

Passados 36 anos, hoje a Unesp é uma universidade com todas as letras. Passou a ser vista com respeito dentro e fora do País. Está implantada em 23 cidades, incluída a capital do Estado. E exibe números impressionantes.

Seus 3,5 mil professores compõem com os 7.153 funcionários uma plataforma consistente para as atividades de ensino, pesquisa e extensão de serviços. A Unesp oferece 171 opções de cursos de graduação, que formam, por ano, 5,6 mil novos profissionais e agregam mais de 35 mil alunos. Na pós-graduação, mais de 10 mil alunos estudam em 117 mestrados e 93 doutorados acadêmicos. Milhares frequentam cursos de especialização. Os inscritos no vestibular passaram de 9.700, em 1976, para 89.550, pois o número de vagas oferecidas aumentou de 2.800 para 8 mil.

A Unesp está entre as instituições que mais produzem ciência no Brasil, em todas as áreas. Seus projetos de extensão universitária incluem apoio à gestão municipal, orientação a pequenos empresários, atendimento médico e odontológico, formação de professores e previsão do tempo para agricultores.

Sua infraestrutura inclui 1.900 laboratórios e 30 bibliotecas, com 2,6 milhões de livros, além de museus, biotérios, clínicas de psicologia e fisioterapia, hospitais veterinários e cinco fazendas experimentais, perfazendo uma área total de 62,8 milhões de m2. Conta ainda com o importante Hospital de Clínicas de Botucatu, com 462 leitos, e administra o Hospital Estadual Bauru, com outros 318 leitos.

A Unesp deixou de ser vista com desconfiança. Em 2010, figurou em 6.º lugar no Ranking Ibero-Americano SIR. Ao longo de 2011, avançou 116 posições no Webometrics Ranking of World Universities, passando a ocupar a 122.ª posição no mundo e a 4.ª na América Latina. Por mais que tais rankings sejam polêmicos e não devam ser lidos de forma produtivista, deixando de lado a qualidade do que se faz, alguma coisa eles indicam.

Como pôde a Unesp dar esse salto? Houve, antes de tudo, a longa série de reitores comprometidos com a construção de uma universidade que se dedicasse à pesquisa sem descuidar do ensino e fizesse de sua distribuição espacial um fator de adensamento estratégico no território paulista. Isso possibilitou a fixação de um padrão de gestão e facilitou a incorporação da ideia de autonomia não como questão financeira, mas, sim, como liberdade de fazer escolhas e tomar decisões - autonomia diante do Estado, dos dogmas, dos interesses particulares e das pressões locais.

Mas nada disso teria proliferado se professores e servidores técnicos não tivessem demonstrado determinação. Quem trabalha na Unesp sabe como é forte o preconceito contra as "faculdades do interior" e como pesa a atração dos grandes centros. Houve um momento em que a Unesp parecia ser uma espécie de trampolim para a USP. Alguns docentes fizeram essa trajetória, que nada tem de condenável. A maioria, no entanto, permaneceu nos câmpus, convertendo-os em ótimos lugares para produzir ciência e ensinar. São eles o maior patrimônio da Unesp.

Hoje, imersa numa fase de sucesso, a Unesp precisa permanecer interpretando com rigor o mundo e as pessoas que a cercam. Há problemas e desafios novos a exigir respostas novas, tanto no âmbito da gestão quanto do ensino e da pesquisa. Muitos deles são de natureza ética e política. Como ensinar, como ligar a formação acadêmica ao mercado, como fazer ciência de ponta sem deixar de lado a ciência aplicada? O que fazer com as tecnologias da informação e as possibilidades de ensino a distância? Qual o papel dos professores na direção da universidade? Não há consensos consistentes a esse respeito. Dá-se o mesmo com inúmeras outras questões.

O vitorioso projeto da Unesp tem tudo para seguir em frente. Sua continuidade depende basicamente da capacidade que a comunidade acadêmica (os professores, sobretudo) tiver de fortalecer os pactos internos e o diálogo institucionalizado. Daqui para a frente, problemas e desafios tenderão a ser sempre mais complicados. Exigirão, por isso mesmo, doses adicionais de entendimento e articulação, para que interesses e modos de pensar particulares continuem a se manifestar sem competir entre si de modo improdutivo. Esse é certamente o melhor recurso para que o planejamento institucional possa ser feito com os olhos no longo prazo e nas necessidades sociais.

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