A urgência da renovação política

A eleição paulistana foi um exemplo da urgente necessidade de renovação das lideranças partidárias

O Estado de S.Paulo

04 Outubro 2016 | 03h10

A eleição paulistana foi um exemplo da urgente necessidade de renovação das lideranças partidárias. Não se trata apenas de apresentar na campanha um rosto desconhecido com o objetivo de explorar o cansaço do eleitor com os candidatos de sempre, pois essa artimanha é, em muitos aspectos, apenas a reafirmação do modo oportunista de fazer política. Trata-se de superar, na prática, o ranço dos caciques que tratam os partidos como se fossem suas donatarias e que só permitem a ascensão daqueles quadros que lhes sejam fiéis, e não daqueles que estejam realmente interessados em trabalhar pelos eleitores.

Nesta eleição, o “novo” recendia a velho. A campanha em São Paulo pouco ou nada tratou dos problemas da cidade, servindo somente como prévia para a eleição presidencial de 2018. Discutiram-se com ligeireza as questões que mais afligem os paulistanos, especialmente os mais pobres, enquanto ficava evidente qual era o único debate que realmente interessava aos senhores partidários: quem sairia ganhando ou perdendo com a crise econômica e política no plano nacional.

Assim, não houve propostas que avançassem para além do trivial, e muitas delas eram apenas irresponsáveis, por desconsiderar a situação de penúria das contas da Prefeitura. Mais uma vez, prevaleceram promessas vazias.

Considerando-se os candidatos que se apresentaram ao eleitor, a campanha dificilmente poderia ter sido diferente. O prefeito Fernando Haddad, por exemplo, prometeu ser “diferente” – era esse seu slogan –, mas, na prática, ele continuou a ser o que sempre foi: um “poste”, criatura do chefão Lula da Silva. A reeleição de Haddad nada acrescentaria à cidade, pois teria como único propósito evitar a derrocada completa de seu partido e de Lula.

Também não era possível esperar nada de “diferente” de Marta Suplicy (PMDB) e de Luiza Erundina (PSOL), ambas com passagens medíocres pela Prefeitura. Mais até do que Haddad, as duas servem para comprovar a indigência dos quadros partidários, mesmo daqueles que, como o PSOL, se apresentam como a vanguarda do “novo”.

Finalmente, o tucano João Doria (PSDB), que venceu a eleição, passou a campanha a dizer que não era político – uma forma nada sutil de explorar o fastio do eleitorado com a política. Mas sua heterodoxa coligação de partidos com escassa representatividade, quase todos exclusivamente interessados em se assenhorear de pedaços da máquina municipal, não autoriza imaginar que a montagem do novo governo signifique mesmo a negação da velha política, como prometeu o candidato tucano. Ademais, Doria é o “poste” do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, cujas pretensões para a disputa presidencial em 2018 são evidentes. Não é à toa que, em seu primeiro discurso como prefeito eleito, Doria tratou de lançar seu padrinho ao Palácio do Planalto.

Num tal cenário, não surpreende que haja forte desalento com a política. Mais do que nunca, os eleitores, especialmente os mais jovens, não se identificam de nenhuma maneira com as velhas raposas dos velhos partidos, mesmo que estes caprichem na fantasia da novidade. Explica-se, dessa forma, a crescente tendência à organização política que se realiza à margem dos partidos e até mesmo prescinde deles, o que tende a aprofundar o divórcio entre a sociedade e as instituições de representação democrática, com óbvios riscos para a estabilidade.

Se quiserem recobrar sua importância, os partidos políticos precisam, em primeiro lugar, deixar de ser mera representação dos interesses de seus donos, que pouco ou nada têm a ver com os interesses dos eleitores. Seus simpatizantes devem exigir que novos quadros, desvinculados dos velhos caciques, tenham condições de ascender à liderança, colocar propostas novas em discussão e eventualmente defendê-las diante dos eleitores. Não há dúvida de que somente dessa maneira será possível dar os primeiros passos na recuperação dos partidos como autênticos veículos das aspirações políticas da sociedade. Disso depende a própria democracia.

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