A verdade sobre as ocupações

As características que assumiu a operação de reintegração de posse de um terreno em Capão Redondo, onde viviam cerca de 2 mil pessoas em 800 barracos - realizada segunda-feira pela Polícia Militar (PM) e cujas cenas de violência, transmitidas pela televisão, causaram forte impressão -, devem merecer toda a atenção da opinião pública e das autoridades. Elas mostram que, ao contrário do que muitos imaginam, em geral operações desse tipo não são uma disputa pura e simples entre ferozes e desalmados policiais e um grupo de deserdados em luta pela sobrevivência. Antes de mais nada, é preciso lembrar que a operação foi feita dentro da mais rigorosa legalidade, com base em decisão tomada pela Justiça há oito meses. Nesse longo período, a dona do terreno, a Viação Campo Limpo, tentou chegar a acordo com os moradores sobre sua desocupação pacífica. Só depois do malogro dos entendimentos é que ela pediu e conseguiu da Justiça a ordem de reintegração de posse. A empresa também cedeu caminhões para transportar os pertences dos ocupantes do terreno. Nesse caso, não se pode dizer que houve precipitação ou má vontade do proprietário.Quanto à PM, ela foi ao local para cumprir a obrigação de fazer respeitar decisão judicial, com ordens para agir com moderação, usando só em último caso, como de fato ocorreu, bombas de gás e balas de borracha. Para completar o quadro, registre-se que a Secretaria de Assistência Social, ofereceu aos despejados vagas - que foram rejeitadas - em albergues da Prefeitura, assim como passagens aos que desejassem voltar às suas cidades de origem. Tudo que era possível, numa situação delicada como essa, foi feito, portanto, para que a desocupação do terreno se desse sem conflito.Isto não ocorreu porque havia entre os moradores - insuflando-os a resistir - um grupo bem organizado e determinado a enfrentar a polícia. Esse grupo - no qual segundo a PM havia pessoas de fora da favela, entre as quais traficantes - orientou e participou da montagem de barricadas nas duas principais entradas do terreno. Pneus e dois automóveis foram incendiados para impedir a entrada dos policiais, recebidos pelos moradores com pedras, rojões e coquetéis molotov. Um dos automóveis incendiados transportava botijões de gás e explodiu perto de um grupo de policiais, por pouco não provocando uma tragédia.Alguns barracos foram incendiados e o fogo logo se alastrou - segundo os moradores, pelas bombas lançadas pela polícia e, segundo esta, pelos favelados, para assim dificultar a sua ação. As características das ações do grupo que organizou a resistência à operação policial não deixam dúvidas de que não era integrado por simples moradores - que não sabem preparar coquetéis molotov nem armar barricadas com destreza e em locais muito bem escolhidos -, mas por gente bem treinada. Isto é reforçado pelo que aconteceu com fotógrafos do Estado e do Diário de S. Paulo, atacados por cinco homens, dois deles armados, que roubaram seus equipamentos e os levaram para um barraco, onde foram salvos pela polícia.É importante chamar a atenção para todos esses detalhes, porque eles compõem um quadro que tem muito pouco a ver com a versão distorcida da maioria dos conflitos resultantes das desocupações de terrenos na cidade, transformados numa luta do bem contra o mal. Não há inocentes nessa história. O poder público, por exemplo, tem uma grande parcela de responsabilidade, na medida em que não combate com a eficiência necessária as máfias dos loteamentos clandestinos, que exploram a boa-fé dos favelados e estimulam as ocupações irregulares. Sem falar na insuficiente oferta de moradias populares.Mas, havendo decisão judicial a cumprir, e tendo ainda o poder público feito a sua parte para resolver o problema - como ocorreu no caso do Capão Redondo -, não podia deixar de agir como agiu. E deve agir assim, sempre, em casos semelhantes, como - para citar um exemplo - os da ocupação irregular, que avança perigosamente, de áreas de proteção de mananciais na Serra da Cantareira, vitais para o abastecimento de água da capital.

, O Estadao de S.Paulo

26 de agosto de 2009 | 00h00

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