A violência das torcidas

Apesar de todas as promessas das autoridades de que porão um fim a esse tipo de violência, feitas por ocasião dos conflitos que se sucedem há décadas, nada abala as chamadas torcidas organizadas, que de torcidas só têm o nome, pois não passam de bandos de marginais. A mais recente prova disso é o conflito, ocorrido domingo, entre torcidas do Palmeiras (Mancha Alviverde) e do Corinthians (Gaviões da Fiel), que deixou um morto com um tiro no peito – um homem de 60 anos, que nada tinha a ver com a briga.

O Estado de S. Paulo

05 Abril 2016 | 03h00

Os conflitos ocorreram em três pontos: em São Miguel Paulista, na zona leste; na estação Brás da Linha Vermelha do Metrô; e em Guarulhos, na região metropolitana. Todos eles muito distantes do local em que se realizou a partida entre aqueles dois times, o Estádio do Pacaembu, em mais uma demonstração de que essas brigas há muito deixaram de estar necessariamente ligadas ao calor da disputa. Os bandos adversários se enfrentam em qualquer lugar em que se cruzam, pois já saem às ruas prontos para se entregar à violência, sem se importar nem mesmo com o que vai acontecer durante o jogo.

A morte aconteceu em São Miguel Paulista, onde integrantes da Mancha, que esperavam ônibus, perto da Praça Padre Aleixo Monteiro Mafra, conhecida como Praça do Forró, para ir ao estádio, entraram em luta com os da Gaviões, que chegaram com pedaços de pau, de ferro e pedras e rojões. Cenas semelhantes se registraram no Brás e em Guarulhos, onde a polícia apreendeu armas brancas. Foram detidas 57 pessoas e a polícia investiga quem disparou a arma que matou o homem pego por acaso no meio da briga.

A avaliação da situação feita pelo tenente-coronel da Polícia Militar (PM) Luiz Gonzaga, responsável pelo policiamento dos clássicos do Campeonato Paulista, é preocupante. “A gente percebe um clima de animosidade no ar, existe um clima de guerra”, diz ele, alertando para o risco de novos conflitos, o que leva a PM a reforçar a segurança nos locais considerados mais perigosos. A situação se agravou depois da “declaração de guerra” da Mancha Alviverde à Gaviões da Fiel, como resposta à prisão de um de seus integrantes, suspeito de ter participado do espancamento de dois dirigentes do banco corintiano.

Sentindo o perigo, o secretário de Segurança Pública, Alexandre de Moraes, se reuniu com representantes do Poder Judiciário, do Ministério Público e da Federação Paulista de Futebol para “tratar de questões relacionadas à segurança nas partidas de futebol”.

Infelizmente, é muito difícil que de encontros como esse, mesmo com as costumeiras boas intenções, saia alguma coisa de útil para pôr fim à violência das torcidas organizadas, tendo em vista o histórico da questão e a incapacidade do poder público – em todo o País, pois o problema não é só de São Paulo – de tomar as medidas drásticas que se impõem, inspiradas na experiência dos países europeus, em especial a Grã-Bretanha. 

“A PM acompanha a entrada e a saída das torcidas organizadas até o seu destino para evitar que se encontrem”, afirma o tenente-coronel Luiz Gonzaga. Dentro da orientação atual, isso é mesmo o máximo que se pode esperar dela. A chave da questão está em mudar essa orientação, antes de mais nada porque é impossível cobrir todos os locais da cidade em que os bandos de alucinados em que se transformaram as torcidas organizadas podem se cruzar.

O caminho a seguir é, com possíveis acerto que a situação brasileira recomende, o adotado pela Grã-Bretanha para conter seus violentos torcedores, os hooligans, que nada ficavam a dever aos daqui. Além de tornar mais seguros os estádios, as autoridades daquele país estabeleceram a identificação dos torcedores violentos, por meio de ação conjunta dos clubes e do serviço de inteligência da polícia, e a obrigação de que eles se apresentem à polícia nos dias de jogos, durante os quais devem prestar serviços comunitários.

Os britânicos cortaram assim o mal pela raiz. Um bom exemplo.

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