A violência em Jandira

O assassinato do prefeito de Jandira, Walderi Braz Paschoalin (PSDB), com todas as evidências de crime político encomendado, expõe com crueza uma realidade chocante. A 30 quilômetros da sede da Secretaria da Segurança Pública do Estado, num ambiente que nada mais é do que a extensão do aglomerado urbano que começa no centro da cidade de São Paulo e se espalha pela região metropolitana, questões políticas ou de outra natureza continuam sendo resolvidas à bala - às vezes, com a contratação de pistoleiros profissionais -, sem que as autoridades responsáveis pela segurança pública se mobilizem para combater essa prática criminosa.

, O Estado de S.Paulo

15 Dezembro 2010 | 00h00

"Aqui sempre foi assim, na bala", relembra o vereador mais antigo da cidade e líder do PSDB na Câmara Municipal, Henrique Francisco de Alexandria, que garante ter escapado duas vezes de ser assassinado porque andava armado.

Jandira conquistou sua autonomia política em 1963. Paschoalin é o segundo prefeito da cidade assassinado no exercício do mandato. O primeiro foi Dorvalino Abílio Teixeira, em 1983, vítima de latrocínio (assalto seguido de morte), segundo a conclusão da polícia, da qual muitos ainda duvidam.

O assassinato de Paschoalin é o quarto crime registrado na cidade neste ano envolvendo políticos. Dos sete assassinatos ocorridos em Jandira em 2010, três foram de políticos. Em julho, o vereador Waldomiro Moreira de Oliveira (PDT), da base parlamentar do prefeito e investigado pelo Ministério Público sob suspeita de receber propina de Paschoalin, foi morto em frente da sua casa com cinco tiros no peito e na cabeça. As investigações policiais concluíram que Oliveira foi vítima de assalto.

Três semanas depois, o suplente de vereador Antonio Ivo Aureliano, também do PDT, foi morto com vários tiros na cabeça, na mesma rua em que morava Oliveira. Para a polícia, não houve relação entre os dois assassinatos e, também no caso de Aureliano, a versão policial é a de latrocínio, cometido por dois homens em uma moto.

Em setembro, o prédio onde morava a filha do prefeito assassinado, Ana Beatriz Paschoalin, foi invadido por sete homens armados com fuzis e metralhadoras, que, no entanto, não conseguiram entrar no apartamento dela. Fugiram sem levar nada. No mês seguinte, Ana Beatriz foi vítima de tentativa de sequestro. No fim do ano passado, a casa de Paschoalin foi invadida por ladrões, que levaram joias, dinheiro e um carro da família.

Paschoalin era o primeiro prefeito de Jandira eleito para três mandatos. Ele foi alvo de investigações pelo Ministério Público sobre pagamentos de propinas a vereadores, atrasos em processos judiciais pela Secretaria de Negócios Jurídicos para favorecer o prefeito, irregularidades na impressão de jornal pela Secretaria de Educação, apuração de improbidade administrativa, irregularidades em contratos da prefeitura e uso indevido de verbas do Fundeb. Só a última continua em andamento.

Ele foi assassinado por homens encapuzados que utilizaram fuzis e metralhadoras, armas geralmente empregadas por grupos criminosos com alto nível de organização. Paschoalin foi morto quando chegava para participar de um programa semanal de rádio, por meio do qual dialogava com os munícipes. Levou 13 tiros, a maioria no rosto. Seu motorista, Wellington Martins, foi atingido na cabeça e está internado no Hospital das Clínicas. Nada foi roubado.

Com essas características, o crime não pode ser classificado como assalto ou tentativa de assalto, como foram classificados outros assassinatos de políticos ocorridos em Jandira. "Este ato não foi um homicídio simples, por qualquer motivo fútil. Certamente deve haver algum interesse atrás disso", comentou o governador Alberto Goldman.

As autoridades policiais dizem estar atentas a todos os detalhes que possam levar aos executores do crime e, deles, aos mandantes e aos motivos da execução. Esclarecido esse crime, será necessário eliminar o primado da bala e restabelecer o primado da lei em Jandira.

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