A virada do Masp

A partir de doações de pessoas físicas, o Museu de Arte de São Paulo (Masp) conseguiu levantar nos últimos meses R$ 15 milhões para fazer frente às suas dívidas, cuja soma alcançava a cifra de R$ 12 milhões e - caso não fosse paga - poderia paralisar as suas atividades. A eficiência da operação de fund raising (captação de recursos), de proporções inéditas no âmbito cultural no País, deve-se em boa medida ao profissionalismo do projeto de governança implementado pela nova diretoria, que foi capaz de inspirar confiança em 83 doadores. Agora, o museu - com um novo estatuto - traça planos para 2015.

O Estado de S.Paulo

30 Novembro 2014 | 02h05

Ao Masp não faltam qualificativos. Considerada a mais importante coleção de arte ocidental clássica e moderna fora da Europa e da América do Norte, o seu acervo de cerca de 8 mil obras está estimado entre US$ 2 bilhões e US$ 3 bilhões. É o maior museu do País em número de visitantes, recebendo 845 mil pessoas por ano, segundo dados de 2012. Tal número faz dele o 51.º museu mais visitado do mundo. No entanto, é um museu privado, e a questão financeira volta e meia adquire contornos dramáticos. E foi o que ocorreu no final do ano passado, quando a então presidente do museu, Beatriz Pimenta Camargo, procurou Alfredo Egydio Setubal em busca de uma solução para a situação deficitária do museu. Em valores atuais, eram R$ 3 milhões de dívidas trabalhistas, R$ 3 milhões de dívidas tributárias e R$ 6 milhões de dívidas com bancos e fornecedores. A partir dessa conversa, foi sendo esboçado um plano de recuperação do museu, que começou por agregar pessoas com experiência em gestão e dispostas a ajudar no projeto. Entre eles, estavam Heitor Martins, ex-presidente da Bienal São Paulo, e Alexandre Bertoldi, sócio do Pinheiro Neto Advogados, que depois ficaria responsável por propor as mudanças estatutárias e de governança do museu. A ideia era incorporar à gestão do Masp as melhores práticas de instituições internacionais privadas, como o MoMA, Lincoln Center e Metropolitan.

A transparência corporativa da nova gestão foi um passo fundamental para o sucesso da campanha de arrecadação de recursos. "Quando fui procurado para colaborar, percebi que havia uma diretoria engajada, com um plano sério de gestão, levando um conceito de empresa para dentro do contexto cultural", afirmou Patrice Etlin, presidente do fundo de investimento Advent na América Latina e um dos 83 doadores.

Com o novo estatuto, o Masp ganhou uma estrutura similar à de uma empresa. Tem um conselho deliberativo, uma diretoria estatutária e um conselho fiscal. A diretoria estatutária, com sete membros, é responsável pelo governo da instituição. Dentro da concepção de profissionalizar a gestão, também foram criados comitês para discutir assuntos específicos do museu. Há um grupo de programação responsável por debater o teor das exposições e mostras, um grupo responsável pela captação de recursos e outro que ficou encarregado da comunicação e das relações institucionais do museu.

Para assegurar a renovação dos quadros gestores, foram instituídos mandatos, com limite máximo para o número de renovações. Na diretoria estatutária, são permitidos apenas três mandatos (de 3 anos) consecutivos. Já no conselho, o limite máximo são dois mandatos (de 4 anos) consecutivos. "O que a gente está vendo é um processo de transição de um modelo que nasceu a partir de um mecenas para um modelo institucionalizado de governança. Este processo está em curso e não é feito de forma linear e sem dores. A gestão no passado era muito personalista", afirma o atual presidente do museu, Heitor Martins.

Como é natural, os problemas não estão todos resolvidos e ainda há grandes desafios a serem enfrentados - por exemplo, finalizar as obras do prédio anexo ao museu, recebido em doação anos atrás. O País torce para que esse novo modelo de gestão dê bons frutos no Masp, que não é orgulho apenas da cidade de São Paulo, mas do Brasil inteiro. E possa inspirar outras instituições a seguirem o mesmo caminho.

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