A visão tacanha de Trump

A retórica inflamada de Trump nada tem a ver com o que se espera de um estadista

O Estado de S.Paulo

20 Setembro 2017 | 03h15

A visão que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem da ordem internacional e da forma como pretende tratar os seus problemas, apresentada num discurso agressivo na Assembleia-Geral da ONU, em Nova York, tem tudo para aumentar os temores de que sua ação à frente da nação mais poderosa do mundo tende a acirrar os ânimos e fomentar a instabilidade, em vez de ajudar a encontrar soluções, como era de esperar da parte de alguém com suas responsabilidades. Sua retórica inflamada, recheada de ameaças, nada tem a ver com a palavra sensata que se espera de um estadista.

Não admira que as palavras de Trump tenham provocado murmúrios na plateia de líderes mundiais, entre atônitos e preocupados, como poucas vezes se viu na história das assembleias anuais da ONU. A passagem mais contundente foi a referente à crise provocada pelos testes da Coreia do Norte com bombas atômicas e foguetes que podem transportá-las, e as ameaças de usá-las contra os Estados Unidos e seus aliados na região, principalmente a Coreia do Sul e o Japão.

Trump tratou a questão sem nenhum tato diplomático, num tom francamente belicoso, ao afirmar que os Estados Unidos não terão outra escolha senão “destruir totalmente” a Coreia do Norte, caso sejam obrigados a defender-se ou a seus aliados da ameaça nuclear do regime comunista liderado por Kim Jong-un. “Esperamos que isso não seja necessário. É para isso que a ONU existe”, acrescentou. Fez questão de ignorar, ao jogar a responsabilidade para a ONU, que esse tipo de linguagem é totalmente estranho à maneira diplomática que é da natureza dessa organização.

O presidente norte-americano parece não se dar conta de que, partindo dele, essa ameaça não é uma simples bravata, uma fanfarronice, que pode ficar bem num ditador demagogo, não tão difícil de encontrar na heterogênea Assembleia da ONU. Feita por quem tem o comando da maior força nuclear e do maior complexo militar do mundo, tal ameaça deve, em princípio, ser levada a sério. E isso significa considerar, no mínimo, a hipótese de uma tragédia que envolveria toda a região. A “destruição total” da Coreia do Norte, certamente num ataque nuclear, atingiria a Coreia do Sul e provavelmente – se Kim Jong-un tiver condições de usar seu arsenal – também o Japão.

Por isso, os membros mais sensatos do governo Trump, como os secretários de Estado, Rex Tillerson, e da Defesa, Jim Mattis, têm insistido em apontar a diplomacia como o caminho adequado para encontrar uma solução para o problema criado pelo armamento nuclear da Coreia do Norte e as ameaças de Kim Jong-un aos vizinhos, às bases americanas na região e aos próprios Estados Unidos.

O que torna ainda mais grave e preocupante o discurso de Trump na ONU é que nele a Coreia do Norte não é caso isolado. Ele faz parte de uma visão da ordem internacional que tem uma lógica assustadora. O líder americano atacou igualmente o acordo dos Estados Unidos – fechado por Barack Obama – e seus aliados com o Irã, destinado a limitar o programa nuclear desse país a usos de natureza civil, classificando-o de “embaraçoso”. Com isso e com a mesma retórica exaltada – o Irã foi tachado de “ditadura corrupta”, que apoia o terrorismo e continua a ameaçar os Estados Unidos e Israel – deixa aberta a porta para denunciar o acordo.

A única exceção foi o problema da Venezuela – mergulhada numa profunda crise e que já se tornou de fato uma ditadura –, para a solução do qual pediu o apoio dos países da região. Seguiu nesse caso o caminho das pressões e da diplomacia, depois de reunião com líderes latino-americanos, entre eles o presidente Michel Temer, que rechaçaram qualquer solução militar.

No mais, Trump expôs uma visão sombria e tacanha da política externa americana, que privilegia a ameaça militar em detrimento da diplomacia e, no campo econômico, a defesa do protecionismo.

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