A vistoria das motos

A Prefeitura alterou, por meio de portaria publicada no Diário Oficial da Cidade de São Paulo no último dia 10, o modelo de vistoria das motocicletas no programa de inspeção obrigatória para avaliação de poluentes emitidos por veículos, iniciado em fevereiro. Até então, a inspeção consistia na verificação de vazamentos de combustível ou óleo e na medição dos gases produzidos e emitidos. Com o auxílio de uma sonda, os técnicos avaliavam a emissão de monóxido de carbono e a diluição desse poluente no ar. Pelas novas regras, esse último fator não será mais considerado. Segundo a Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas (Abraciclo), o combustível adulterado vendido por boa parte dos postos da cidade altera os índices de diluição e, consequentemente, um grande número de motos inspecionadas é reprovado. Em fevereiro, primeiro mês da inspeção para as motos com placas de final 1, das 2.047 unidades vistoriadas, 316 foram reprovadas no exame de medição de poluentes. No dia seguinte à publicação da portaria, o Ministério Público Estadual (MPE) questionou a mudança das regras que reduziu o rigor da inspeção para esse tipo de veículo e investigará se a alteração traz prejuízos para os resultados do programa de vistoria. Ao explicar por que cedeu às pressões dos fabricantes, a Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente afirmou que os consumidores não poderiam ser penalizados pela adulteração dos combustíveis comercializados na cidade. Para os automóveis, no entanto, o índice de diluição continua sendo fator de reprovação, apesar de grande parte da frota também rodar com combustível adulterado.As emissões de gases das motocicletas são sete vezes maiores do que as dos carros zero-quilômetro. Há oito anos, essa relação era ainda maior: enquanto uma moto de 150 cilindradas emitia 12 gramas de monóxido de carbono por quilômetro rodado, um automóvel lançava apenas 0,73 grama ao ar, ou seja, 16 vezes menos do que uma motocicleta. Somente a partir de 2003, com o início do Programa Federal de Controle das Emissões das Motocicletas e Similares (Promot), a indústria começou a investir no aperfeiçoamento dos motores com o compromisso de, neste ano, igualar o índice de emissão das motos ao dos automóveis. O Promot 3, terceira fase do programa, que inclui novas exigências capazes de finalmente nivelar as emissões entre os dois tipos de veículos, teve início em janeiro. A Abraciclo, no entanto, conseguiu do Ibama autorização para que seus associados continuem a produzir e importar motos fabricadas de acordo com as regras do Promot 2 até o fim deste mês de março. A justificativa para o pedido foi a interrupção da produção no ano que passou, por causa da crise econômica. O novo prazo daria às indústrias condições de baixar estoques de peças e veículos já fabricados. Os fabricantes de motos argumentam que, enquanto a indústria automobilística teve quase duas décadas para se adequar às regras exigidas pelo Proconve - versão do Promot para veículos automotores -, eles têm de se adequar a um modelo muito mais rigoroso em apenas seis anos Mas boa parte da tecnologia dos catalisadores criados para reduzir a emissão dos automóveis já foi desenvolvida e bastaria adequá-la aos motores de motos, menos complexos, dizem técnicos de órgãos ambientais do governo federal. Além disso, a imensa concentração de motos na cidade de São Paulo, as péssimas condições de manutenção de grande parte dessa frota e a sua influência nos índices de poluição e de violência no trânsito são motivos suficientes para dobrar a fiscalização sobre esses veículos. As motocicletas se transformaram em problema de saúde pública, não só pelo elevado índice de acidentes com mortes que provocam, como pelas consequências da emissão de gases para a saúde pública.Em vez de amenizar a inspeção contra a poluição, as autoridades municipais deveriam vistoriar com rigor vários outros itens desses veículos, como suas condições mecânicas, freios, pneus, sinalização, etc., para melhorar a segurança no trânsito.

, O Estadao de S.Paulo

16 de março de 2009 | 00h00

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.