A vitória de Chávez

Mesmo hospitalizado, enfrentando um câncer do qual se dizia curado e longe da Venezuela, o caudilho Hugo Chávez está desmantelando seus opositores, pavimentando o caminho para a manutenção do regime bolivariano na sua eventual ausência, desfecho que parece cada vez mais provável. As eleições regionais de domingo, em que os chavistas ganharam nada menos que 20 dos 23 Estados em disputa, mostraram a força do caudilho e, em igual medida, a incapacidade da oposição de superar suas divergências e de apresentar-se como alternativa viável à "revolução bolivariana".

O Estado de S.Paulo

18 Dezembro 2012 | 02h08

Como era inevitável, Chávez explorou seu drama pessoal como um trunfo eleitoral. O vice-presidente Nicolás Maduro, transformado pelo caudilho em seu herdeiro político, pediu, em cadeia nacional, que os venezuelanos dessem "um voto de amor por um homem que sempre deu tudo pelo povo da Venezuela". As eleições, como se sabe, são a varinha mágica do chavismo para transformar o regime ditatorial venezuelano numa "democracia". Segundo essa lógica ilusionista, pouco importa se o Judiciário é controlado pelo governo ou se o Estado está a serviço dos candidatos oficialistas; pouco importa, também, se o dinheiro público é vertido como maná para financiar demagogia travestida de justiça social ou se Chávez é onipresente na TV, por meio de suas transmissões obrigatórias. O que interessa, no discurso bolivariano, é que o chavismo é referendado pelas urnas, em eleições "limpas", nas quais a imensa maioria dos eleitores venezuelanos vota nos candidatos do caudilho por "amor" a seu líder, agora apresentado como mártir.

Os resultados da eleição serão trombeteados pelos chavistas como prova do poder do caudilho e da aceitação plena do projeto bolivariano pelos venezuelanos. De fato, diante dos números, parece haver pouca margem de dúvida: afinal, os candidatos de Chávez capturaram nada menos que cinco Estados da oposição, entre eles Zulia, o mais rico.

Contudo, há dados que matizam a vitória chavista como um triunfo incompleto. Em primeiro lugar, é preciso levar em conta que eleições regionais são pautadas por questões locais, e não nacionais. Alguns candidatos que fazem parte da oposição a Chávez foram derrotados porque estavam havia muito tempo no poder, sofrendo da chamada "fadiga de material". Em outros casos, a qualidade dos postulantes anti-Chávez era tão ruim que seus eleitores em potencial preferiram ir à praia a ir às urnas. Não à toa, a abstenção foi de 46,1%, uma das maiores da história recente da Venezuela. Para ter uma dimensão desse número, basta lembrar que 80,4% dos venezuelanos votaram na eleição presidencial de outubro.

É preciso também considerar que a reeleição do governador Henrique Capriles em Miranda foi um importante revés para Chávez. Bater Capriles era seu objetivo prioritário nesta eleição, uma vez que o governador, candidato derrotado por Chávez nas eleições presidenciais de outubro após realizar uma campanha bem organizada, aparece como o mais viável líder de uma oposição tão carente de nomes fortes para enfrentar o chavismo. Por essa razão, Chávez enviou um de seus mais importantes colaboradores, o ex-vice-presidente Elias Jaua, para enfrentá-lo.

Nada disso, porém, muda o fato de que o chavismo venceu com enorme folga uma eleição que deveria ter servido como a afirmação da ascensão oposicionista, que parecia consistente nos últimos tempos, principalmente depois das eleições regionais de 2008, em que o desempenho foi muito melhor do que o de agora. Nem mesmo os altos índices de violência urbana, de inflação e de rombos nas contas públicas parecem capazes de abalar a confiança da maioria dos venezuelanos no chavismo.

Em seu discurso, Capriles, embora tenha denunciado o deplorável uso eleitoral da doença de Chávez e acusado os chavistas de chantagem e abuso de poder, tentou mostrar otimismo: "A mudança está próxima". Mas, como as urnas mostraram, a oposição venezuelana terá de ser muito mais eficiente e unida do que foi até agora para conseguir quebrar o encanto chavista.

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