A volta da tensão nuclear

Neste grave momento, torna-se fundamental a intervenção da Organização das Nações Unidas (ONU) e das grandes potências para evitar que essa situação chegue ao impensável

O Estado de S.Paulo

10 Agosto 2017 | 03h04

Em 8 de dezembro de 1987, os então presidentes dos Estados Unidos, Ronald Reagan, e da extinta União Soviética, Mikhail Gorbachev, assinaram em Washington o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário, acordo que reduziu os arsenais das duas superpotências e, mais importante, eliminou toda uma classe de armas nucleares.

Quase três décadas após o acerto que é considerado o marco crucial para o fim da chamada guerra fria, o mundo assiste apreensivo à volta da tensão nuclear à agenda global, não bastassem os grandes desafios econômicos, humanitários e ambientais que já premem a sociedade do século 21 e suas lideranças políticas.

De acordo com um relatório elaborado pela Agência de Inteligência de Defesa (DIA) dos EUA no mês passado, divulgado recentemente pelo jornal Washington Post, a Coreia do Norte conseguiu reduzir as dimensões de suas ogivas nucleares – estima-se que Pyongyang disponha de 60 delas hoje –, tornando-as aptas para serem transportadas por um míssil balístico intercontinental (ICBM). A informação foi confirmada pelo Ministério da Defesa do Japão.

A divulgação da façanha realizada pelo regime do ditador Kim Jong-un provocou uma enérgica reação do governo norte-americano. O presidente Donald Trump ameaçou a Coreia do Norte com “fogo e fúria como o mundo nunca viu”. Mais do que uma das muitas bravatas alardeadas por Trump em pouco mais de seis meses de governo, a subida de tom em relação à Coreia do Norte deve ser recebida com atenção porque, pela primeira vez, Kim Jong-un mostrou ter as condições técnicas para atacar o território dos Estados Unidos. Ser capaz de transportar uma ogiva nuclear em um míssil balístico é uma das primeiras condições para que se considere um país capaz de representar uma efetiva ameaça nuclear.

Evidentemente, não se trata de estabelecer aqui qualquer paralelo entre as tensões havidas no contexto da guerra fria e as de hoje. Tampouco cabe a comparação – por quaisquer critérios que se queira adotar – entre a Coreia do Norte e a extinta União Soviética. Entretanto, os danos que o arsenal nuclear do regime de Pyongyang já é capaz de causar não são desprezíveis. Seus mísseis de longo alcance são capazes de atingir a Coreia do Sul, o Japão, a China, a Rússia, Guam – território dos EUA no Oceano Pacífico, onde o país mantém bases militares –, o Alasca, o oeste do Canadá e parte da costa oeste dos EUA.

Embora sejam consideradas rústicas, as armas nucleares da Coreia do Norte têm grande poder de destruição. Por serem tecnologicamente rudimentares, podem ser pouco confiáveis em termos de precisão e alcance, mas podem contaminar grandes áreas.

Os atributos políticos, emocionais e cognitivos de Kim Jong-un, um líder sanguinário medíocre, também não fazem o horizonte parecer promissor. Suas ameaças verbais e os exercícios militares que faz questão de divulgar com um sinistro sorriso levam a crer que o ditador norte-coreano está mesmo disposto a tudo, inclusive engajar seu país e seu povo em uma guerra nuclear de consequências imprevisíveis apenas para demonstrar que não teme enfrentar a maior potência militar do planeta.

Chegou-se a esse ponto de tensão porque a chamada comunidade internacional não levou suficientemente a sério a capacidade norte-coreana de levar avante o seu programa nuclear. O tom anedótico com que Kim Jong-un sempre foi tratado pela mídia internacional, sobretudo nos EUA, contribuiu para este estado de coisas. Enquanto era ridicularizado, o herdeiro de uma dinastia comunista e líder de um país paupérrimo e sem base industrial de importância levou seu povo à penúria, mas desenvolveu ogivas nucleares e mísseis operacionais que agora inquietam o mundo.

Neste grave momento, torna-se fundamental a intervenção da Organização das Nações Unidas (ONU) e das grandes potências para evitar que essa situação chegue ao impensável.

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