A volta de Baby Doc

Ainda não se sabe por que, nem por quanto tempo, o ex-ditador haitiano Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc, deixou a sua opulenta morada na Riviera Francesa no último domingo para visitar o país do qual uma revolta popular o obrigou a fugir há um quarto de século. Mas se sabe por que centenas de pessoas saíram às ruas de Porto Príncipe, na terça-feira, para tentar impedir que ele fosse conduzido ao escritório do procurador-geral do país - de onde saiu 4 horas depois, em liberdade, mas indiciado por corrupção e desvio de recursos públicos. Calcula-se que ele se apropriou de algo como US$ 100 milhões. (O ditador tunisino Zine El Abidine Ben Ali, derrubado dias atrás, teria estocado o dobro disso - em ouro.)

, O Estado de S.Paulo

20 Janeiro 2011 | 00h00

As manifestações favoráveis ao regresso do tirano que herdou o poder aos 19 anos com a morte do pai, François "Papa Doc" Duvalier, em 1971, se explicam por uma circunstância social e uma característica da natureza humana. A circunstância é que a baixa expectativa de vida no Haiti - inferior a 60 anos - torna reduzida a parcela da população que conheceu por experiência própria o pesadelo de 29 anos da dinastia Duvalier. Apenas no reinado de terror de Baby, a milícia particular da família, os Tonton Macoute, cometeu toda sorte de barbaridades contra os haitianos que não se submetiam a seu domínio e exterminou 30 mil pessoas. Os desaparecidos somam 15 mil. Muitos mais emigraram como puderam.

A característica humana é a memória seletiva. Quando o presente é insuportável, o passado reaparece idealizado. Talvez ninguém em Porto Príncipe tenha resumido esse estado de espírito melhor do que uma certa mulher entrevistada por nosso enviado especial Roberto Simon, que, tendo perdido o pouco que tinha no terremoto, sobrevive numa das 1.150 tendas onde se concentram mais de 800 mil de desabrigados. "O Haiti nunca teve um líder perfeito. Muitos eram corruptos. Muitos têm sangue nas mãos", argumenta. "Mas com Duvalier estávamos seguros e os nossos estômagos estavam cheios." Exageros à parte, vale a máxima do dramaturgo alemão Bertolt Brecht sobre a precedência do "rango" sobre a moral. Sobre as "qualidades" dos outros "líderes" que estiveram no poder antes e depois de Duvalier, nada a objetar.

A tragédia política haitiana é que mudam os nomes, mas os horrores persistem - em que pese a presença das forças de paz da ONU, capitaneadas pelo Brasil. Os Tonton Macoute da Casa Duvalier foram corridos da cena, apenas para ser substituídos pelas não menos violentas chimères - em alusão às monstruosas quimeras da mitologia grega -, como eram chamadas as tropas de choque, ligadas ao narcotráfico, do presidente Jean-Bertrand Aristide. Depois da queda de Baby Doc, Aristide foi eleito e reeleito, mas em nenhuma das vezes conseguiu terminar o mandato. Vive na África do Sul desde 2004. O atual governante, René Préval, enfrenta as mesmas denúncias de corrupção, mandonismo e incompetência dos antecessores - em meio à devastação do Estado e da sociedade haitianos provocada pelo sismo de 2010.

O seu governo é acusado de fraudar os resultados da primeira rodada da eleição presidencial de novembro. Segundo os números oficiais, rejeitados pela OEA e pelas ONGs que acompanharam o pleito, deveriam ir para o segundo turno, originalmente marcado para o domingo passado, a opositora Mirlande Manigat e o governista Jude Celestin, por sinal, genro de Préval. Os observadores, no entanto, são unânimes em afirmar que Celestin na realidade perdeu para o terceiro colocado, o cantor Michel Martelly. Antes do súbito regresso de Baby Doc - cujo embarque em um voo de carreira só foi descoberto pouco antes do pouso - Préval relutava em dobrar-se às pressões estrangeiras por um segundo turno sem o seu candidato.

Não se sabe que diferença poderá fazer nesse sentido a presença de Duvalier em território haitiano. Mas, além da fraude eleitoral, a comunidade internacional tampouco pode aceitar o seu indiciamento apenas por desvio de dinheiro, sem que seja detido e processado pelos hediondos crimes de seu regime.

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