A volta de um mundo bipolar?

Relações entre EUA e China despontam como principal eixo de novo ordenamento mundial

*Sergio Amaral, O Estado de S.Paulo

09 Janeiro 2018 | 03h11

Com o fim da guerra fria, o confronto entre Washington e Moscou parecia ceder lugar a um mundo unipolar, sob a égide dos Estados Unidos, de sua visão de mundo e de suas instituições, assim como de sua supremacia econômica e militar. Aos poucos, no entanto, os fatos mostraram que não era bem assim.

Os Estados Unidos continuavam a ser, como serão por um bom tempo, o primus inter pares. Mas a China já afirmava sua aspiração a ser um entre os grandes. A Rússia buscava com determinação restaurar o poder e o território que havia perdido, como evidenciou na ocupação da Crimeia. A Europa, desvendava a força de seu soft power ao seduzir a Ucrânia a deixar a órbita de influência russa. Sem falar no Japão, que conta com o peso político que corresponde ao tamanho de sua economia.

O fato é que o novo século trouxe de volta a geopolítica e, com ela, a fisionomia de um novo mundo multipolar, que inclui igualmente potências médias e líderes regionais, tais como a Índia, o Brasil, o México, a Indonésia e a África do Sul, entre outros.

Ao mesmo tempo que se desenhava uma nova configuração do poder mundial, multiplicavam-se as formas de exercício do poder. Numa visão multidimensional, Nye (Joseph Samuel Nye Jr., cientista político norte-americano) coloca no topo da hierarquia as questões políticas e militares, em que a supremacia americana é inegável; num segundo plano, os fluxos comerciais e financeiros, em que a superioridade é compartilhada com a China e com a Europa, entre outros; por fim, na base, o poder está disperso num conjunto de atores transnacionais, que não raro fogem ao controle dos Estados nacionais. Correspondem aos temas de uma sociedade cada vez mais organizada, das mudanças climáticas, dos direitos humanos, do tráfico de drogas, das migrações, para citar apenas alguns dos tópicos que demandam uma concertação internacional para seu adequado equacionamento.

Em meio a diferentes geometrias, desenhadas por uma multiplicidade de polos de poder e por um emaranhado de atores, as relações entre os Estados Unidos e a China despontam, com crescente nitidez, como o principal eixo estruturante de um novo ordenamento mundial. A relação entre as duas potências, seja de cooperação ou de conflito, deverá plasmar a ordem internacional do século 21. O presidente Xi Jinping já havia sugerido ao então presidente Barack Obama que o intercambio entre Washington e Pequim revestisse o caráter de uma relação especial entre grandes potências. A recente visita do presidente Donald Trump à China, explícita ou implicitamente, consagrou a natureza especial desse relacionamento e apontou para uma nova bipolaridade nas relações mundiais.

A partir daí, a indagação central está em saber como evoluirá o relacionamento entre os Estado Unidos e a China. Prevalecerão as forças da cooperação ou da confrontação? Ou, ainda, uma combinação instável entre ambas?

A esse respeito Henry Kissinger é claro. Não há alternativa à cooperação. A hipótese de confrontação é impensável, pois condenaria a humanidade ao desastre. A reunião Trump-Jinping em Mar-a-Lago, em abril de 2017, deu alento à tese da cooperação. A visita de Trump à China em novembro reforçou a aposta no entendimento. O presidente norte-americano não poupou elogios ao líder chinês, ao mesmo tempo que não escondeu sua expectativa de contar com o apoio de Pequim para a contenção da Coreia do Norte. Xi Jinping, por sua vez, fortalecido pelos poderes que lhe foram outorgados pelo 19.º Congresso do Partido Comunista Chinês, acolheu Trump com todas as honras e a reiteração da emergência pacífica da China, conforme a doutrina de Deng Xiaoping.

Passados os capítulos iniciais dessa aproximação, a parceria para a construção de convergências corre o risco de ser ofuscada por novos pontos de fricção. O empenho de Trump em reduzir o déficit bilateral norte-americano, da ordem dos US$ 300 bilhões por ano, a retomada dos contenciosos comerciais, como o reconhecimento da China como economia de mercado, e as frequentes ameaças às exportações chinesas turvaram mais uma vez o ambiente. O monitoramento dos investimentos chineses em tecnologias sensíveis ou a exigência das autoridades chineses para a transferência de tecnologias por parte de investidores norte-americanos sinalizam que o novo normal do intercâmbio sino-americano possa ser o de um equilíbrio instável, marcado pela alternância entre momentos de cooperação e de conflito.

Mais recentemente, a conclusão do ciclo das armas estratégicas anunciada pela Coreia do Norte e a consequente moderação em sua retórica poderão abrir caminho para o diálogo entre as duas Coreias e ao mesmo tempo para uma convergência entre Estados Unidos e China, em decorrência de seu interesse comum em evitar a nuclearização da Península Coreana.

Nem só cooperação, nem só conflito. Possivelmente uma combinação instável de ambos, que, no dia a dia, tem por pano de fundo uma disputa, silenciosa, mas efetiva, entre as duas superpotências por mercados e áreas de influência.

Esse é o sentido do pivô para a Ásia orquestrado pelo governo Obama, a fim de conter a expansão da China na região, mediante uma combinação de acordos de comércio – entre os quais a Parceria Transpacífica (TPP, na sigla em inglês) – e o fortalecimento de alianças militares. Esse parece ser desígnio do programa One Belt One Road, lançado pela China há alguns anos, que configura uma verdadeira geopolítica da infraestrutura. Compreende financiamento, promoção de investimentos e a expansão do comércio, mediante os quais Pequim estende sua influência a diferentes partes do mundo. Começou com a Nova Rota da Seda, no entorno regional da China, em seguida expandiu-se pela África e agora avança na América Latina, como ilustra a magnitude dos investimentos chineses na região.

*Embaixador em Washington, escreve em caráter pessoal

 

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