A volta dos bancos médios

Surtiram efeito positivo, segundo os números disponíveis, as medidas do Banco Central e do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) destinadas à recuperação da liquidez dos bancos de pequeno e médio portes, evitando o desaparecimento dessas instituições e um aumento ainda maior da concentração bancária. Eliminou-se, sobretudo, um dos fatores de desconfiança dos investidores em aplicações financeiras, com repercussão favorável tanto sobre os bancos médios como sobre seus clientes.Em março, o Conselho Monetário Nacional (CMN) autorizou os bancos a captar até R$ 40 bilhões em depósitos com a garantia do FGC, cujo capital provém dos bancos em geral. Estes depósitos são garantidos pelo FGC até R$ 20 milhões, valor muito superior aos R$ 60 mil garantidos a quaisquer depositantes. Para fornecer a garantia adicional, o FGC recebe o pagamento de 1% ao ano sobre o valor das captações. Entre abril e junho, a medida beneficiou 48 instituições, que captaram R$ 9,16 bilhões em depósitos a prazo com garantia especial (DPGEs). O dinheiro permitiu recompor o capital dos bancos, também beneficiados pelo aumento da confiança dos investidores, como observou ao jornal Valor o diretor executivo do FGC, Antonio Carlos Bueno.No segundo semestre do ano passado, os depósitos nos bancos pequenos e médios caíram 18,8%, porcentual alto o bastante para criar uma crise bancária localizada. Muitas instituições ficaram sem recursos para atender às necessidades de saques de clientes e investidores. Algumas medidas emergenciais foram adotadas pelo CMN, como a liberação de depósitos compulsórios. Para evitar a insolvência, alguns bancos preferiram vender suas carteiras de crédito ao FGC e à Caixa Econômica Federal ou associar-se a bancos maiores, caso do Votorantim.Os resultados do mês passado mostram que a ameaça aos bancos médios foi afastada. Com a venda dos DPGEs, os bancos removeram da sua contabilidade a ameaça do descasamento entre ativos e passivos. Ou seja, deixou de ser um problema o fato de que os empréstimos costumam ser concedidos em prazos mais dilatados do que os da captação de recursos, o que pode ser fatal em hora de crise.Os DPGEs têm prazo médio de 744 dias, propiciando uma folga de liquidez a médio e longo prazos. O custo, estimado pela Cetip, onde são registradas as operações de balcão, oscila entre 95% e 138% do Certificado de Depósito Interbancário (CDI), que acompanha a taxa Selic. Os bancos consideram alta a remuneração, mas, com os recursos obtidos, conseguiram restabelecer seus depósitos e alongar as captações, revelou o presidente do Banco Bonsucesso, Paulo Henrique Pentagna Guimarães.Houve outros resultados positivos: o FGC já conseguiu vender 75% das carteiras adquiridas dos bancos, aos quais havia liberado R$ 8,7 bilhões; o BC está prestes a eliminar os incentivos (liberação de compulsórios) que concedeu aos adquirentes das carteiras; e os bancos já não precisam se socorrer no mercado externo. "Com o aparecimento do DPGE, bastante atraente, a dívida externa ficou relativamente cara", afirmou o diretor de finanças do Banco Mercantil do Brasil, Cristiano Gomes. A instituição pagou antecipadamente parte de uma colocação de papéis no montante de US$ 175 milhões. Segundo Gomes, "o pior já passou". O caixa de alguns bancos chega a ser superior às necessidades.Com a recomposição do capital e a retomada das captações, os bancos médios já ampliam a oferta de crédito - e isto significa mais empréstimos para as pequenas e médias empresas, sobretudo aquelas que não operavam com os grandes bancos varejistas e que, nas últimas semanas, reclamavam da falta de recursos para expandir as atividades. Também as linhas de crédito consignado, operadas por esses bancos, começaram a crescer em abril e maio.A captação de R$ 9,2 bilhões via DPGEs é pequena em relação ao saldo total de títulos privados vendidos a investidores, quase R$ 596 bilhões em maio. Mas, nas crises, a existência de crédito, onde quer que esteja, pode ser a diferença entre a sobrevivência e a morte de empresas.

, O Estadao de S.Paulo

16 de julho de 2009 | 00h00

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