A volta dos colorados

Mesmo para os notórios padrões locais de política e negócios, o novo presidente do Paraguai, Horacio Cartes, eleito domingo para tomar posse em agosto, é uma figura, digamos, especial. Aos 56 anos, nunca antes tinha votado. Apenas em 2009 filiou-se à Associação Nacional Republicana, mais conhecida como Partido Colorado. Pelo estatuto da principal legenda oligárquica do país (a outra é a do Partido Liberal Radical Autêntico), ele só poderia se candidatar ao governo passados 10 anos de sua inscrição. A cláusula foi oportunamente removida em 2011.

O Estado de S.Paulo

23 Abril 2013 | 02h06

Multimilionário, dono do Libertad, que na década passada ganhou sete vezes o campeonato paraguaio de futebol, Cartes é proprietário de um conglomerado de 26 empresas, em geral concentradas na área de fronteira com o Brasil. Entre elas se destaca a cigarreira Tabesa, que fatura, segundo ele, cerca de US$ 60 milhões por ano. A congênere brasileira Souza Cruz a acusa de contrabandear para o País o equivalente a 8% do mercado nacional de cigarros. Em 2010, um documento oficial norte-americano, vazado pelo WikiLeaks, vinculou o empresário a uma rede de lavagem de dinheiro e narcotráfico. Outros crimes lhe são atribuídos.

A fortuna explica a sua fulminante ascensão na hierarquia colorada. Embora quase 1/3 dos 3,3 milhões de eleitores paraguaios tenha a carteirinha da legenda - sem a qual não se era ninguém no país durante os 35 anos da ditadura do general Stroessner (1954-1989), o partidão foi apeado do poder, depois de seis décadas ininterruptas, nas eleições de 2008. As urnas levaram ao Palácio de Los López, a sede do Executivo, o ex-"bispo emérito" Fernando Lugo, à frente da coligação oposicionista Aliança Patriótica para a Mudança. (Desde o seu impeachment, em junho do ano passado, o governo passou às mãos de seu vice, Federico Franco, do Partido Liberal.)

A derrota para Lugo desarvorou os colorados e abriu espaço para o ingresso e a hegemonia de Cartes na agremiação. Favorito no pleito de anteontem, ele derrotou o liberal Efraín Alegre por aproximadamente 10 pontos porcentuais de diferença. A compra de votos nesse país, onde metade da população vive na pobreza, é tida, sabida e praticada a céu aberto. O enviado especial do Estado ao Paraguai, Roberto Simon, ouviu de uma eleitora de Chacarita, um bairro pobre no centro de Assunção, a cândida constatação de que "nos aproveitamos dos políticos uma vez para eles se aproveitarem de nós o ano inteiro". Não admira que a advertência da Igreja, segundo a qual vender votos é "pecado", de nada sirva.

Além disso, todos os funcionários do órgão responsável pelo processo eleitoral - dos mesários à cúpula do Tribunal Superior de Justiça Eleitoral - são indicados pelas oligarquias partidárias. No domingo, seis horas antes do término da votação, o vice-presidente do tribunal, Juan Manuel Morales, já dizia que Alegre terá de reconhecer que "um dos candidatos" (sic) dispunha de ampla maioria. Os colorados também foram os mais votados na disputa pelas 80 cadeiras da Câmara e as 45 do Senado, a Casa mais importante do Legislativo paraguaio. O país, por sinal, tem um sistema sui generis: é um presidencialismo com um Parlamento que pode fazer o que quiser com o Orçamento e vetar decisões do presidente por maioria simples.

Há 10 meses, como se recorda, o Congresso destituiu Lugo em um abrir e fechar de olhos, depois de lhe dar duas horas para se defender da acusação de "má gestão", em seguida a um confronto entre policiais e sem-terra em Curuguaty, no leste paraguaio, que deixou 17 mortos. Numa decisão calculada para permitir o ingresso da Venezuela de Hugo Chávez no Mercosul, a que o Paraguai se opunha ferrenhamente, o país foi suspenso do bloco. Deverá ser reintegrado em agosto, depois da posse de Cartes, se não já na próxima cúpula do organismo, em junho.

Diferentemente do presidente Federico Franco, que ameaçou suspender a venda ao País de energia da parte paraguaia de Itaipu, caso Brasília se recusasse a pagar mais pelo produto, o vitorioso nem tocou no assunto durante a campanha. Uma coisa parece certa: no governo Cartes, o contrabando do que se queira para o Brasil deve seguir firme e forte.

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