A volta dos 'faxinados'

Na segunda-feira, o presidente do chamado Partido da República (PR), senador Alfredo Nascimento, levou o correligionário César Borges, um dos vice-presidentes do Banco do Brasil e ex-governador da Bahia, ao principal gabinete do comitê reeleitoral da presidente Dilma Rousseff, conhecido como Palácio do Planalto. Não se quer dizer com isso que a sede do governo do País nada mais seja hoje em dia do que a sede da campanha de Dilma. Mas nada do que ali se faça importa tanto quanto as ações destinadas a manter a presidente no posto até 1.º de janeiro de 2019. É o que explica a reaparição no coração do poder do chefe do PR, o mesmo que Dilma, na sua decantada fase ética, expurgou da administração federal.

O Estado de S.Paulo

03 Abril 2013 | 02h09

Apadrinhado - também ele - pelo ainda presidente Lula, Nascimento foi reconduzido ao apetitoso Ministério dos Transportes, com seus R$ 10 bilhões de recursos, que ocupara de 2007 a 2010. Durou até julho de 2011, quando sucumbiu, com outros 27 integrantes da pasta, a denúncias incontestáveis de corrupção no setor, a começar do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). O PR foi o primeiro partido a ser "faxinado" por Dilma, mas o seu titular não mereceu a mesma primazia - antes dele, caíra em desgraça o todo-poderoso ministro da Casa Civil, Antonio Palocci. Para o lugar de Nascimento, a presidente promoveu o secretário executivo do Ministério, Paulo Sérgio Passos. E ali provavelmente permaneceria não fosse o fato de Dilma se dispor a "fazer o diabo" pela reeleição.

Passos agradava a Dilma, mas não ao PR, a que é filiado. Os republicanos o consideravam "escolha pessoal" da presidente, não uma demonstração de que o partido, apesar de tudo, continuava representado no primeiro escalão. Depois de dois meses de resistência, ela capitulou diante de Nascimento. Para garantir o minuto e 10 segundos do PR, duas vezes por dia, no horário eleitoral - e para impedir que esse tempo possa beneficiar o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, do PSB, se sair candidato, ou, não seria de excluir, o senador tucano Aécio Neves -, a presidente entregou a Nascimento a cabeça de Passos.

Dilma bateu o pé, no entanto, em relação ao sucessor. Apesar dos protestos de boa parte da bancada federal da agremiação (34 deputados e 4 senadores), que reivindicava o cargo para um dos seus, fechou questão em torno do nome de César Borges, a ser empossado hoje. O engenheiro que ascendeu na política baiana se integrando ao feudo de Antonio Carlos Magalhães (1927-2007) contou agora com o apoio do governador petista do Estado, Jaques Wagner. Borges tem biografia para ser um bom ministro, ainda mais tendo recebido carta branca da presidente para mexer no Dnit. Mas isso não altera o essencial: o uso da Esplanada dos Ministérios como moeda de troca no mercado eleitoral.

Antes de Nascimento, com efeito, Dilma reabilitou o cacique pedetista Carlos Lupi, atingido por uma vassourada quando titular do Trabalho. Há pouco, o posto foi entregue ao seu liderado Manoel Dias, secretário-geral do PDT. Para afagar o PMDB em dois Estados cruciais, nomeou o ex-governador fluminense Wellington Moreira Franco para a Secretaria da Aviação Civil e o presidente do partido em Minas, deputado Antonio Andrade, para a Agricultura. E uma nova pasta, a da Micro e Pequena Empresa, acaba de ser criada para atrair o ex-prefeito paulistano Gilberto Kassab aos palanques dilmistas de 2014. O titular do 39.º Ministério será o vice-governador paulista Afif Domingos, correligionário de Kassab no PSD.

Lula disse certa vez que, se governasse o Brasil, Cristo "teria de se aliar a Judas". A esta altura, ninguém dirá que Dilma faltou à aula naquele dia. Já não se trata de suas alianças com partidos e personagens promíscuos. Quanto a isso, ressalte-se apenas que não é a tal da governabilidade que move a presidente, mas a ânsia de seguir no Planalto. O que mostra a que extremos Dilma leva à prática, sem disfarçar, as lições de seu mentor é a prontidão para premiar - por nenhum outro motivo a não ser aquele - políticos como Alfredo Nascimento e Carlos Lupi, acusados de participação em "malfeitos" e por isso removidos de sua equipe.

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