A volta triunfal de Bachelet

Se existisse reeleição no Chile, em 11 de março de 2010 a então presidente socialista Michelle Bachelet teria começado o seu segundo período de governo em vez de entregar a faixa a Sebastián Piñera, o candidato da centro-direita eleito três meses antes. De fato, numa sociedade com um legado trágico de polarização, a pediatra e ex-ministra de Defesa do país, a primeira mulher a ocupar esse cargo na América Latina, conseguiu a proeza de terminar o mandato com 84% de aprovação popular.

O Estado de S.Paulo

17 Dezembro 2013 | 02h05

Este ano, ao ser lançada novamente ao Palácio de La Moneda pela aliança de centro-esquerda Nova Maioria (ex-Concertação) integrada por socialistas, comunistas e democratas-cristãos - a força política hegemônica no Chile pós-Pinochet -, poucos duvidavam de que derrotaria com facilidade a opositora Evelyn Matthei, que tem em comum com ela o fato de serem ambas filhas de generais da Força Aérea (o de Bachelet morreu nos cárceres da ditadura da qual o de Matthei foi ministro).

Nas pesquisas chilenas, aliás, o indicador mais confiável da tendência de voto dos entrevistados é a sua posição diante do regime de 1973. Não deu outra, portanto, nessa que foi a primeira eleição no país com voto facultativo. Bachelet só não liquidou a fatura no primeiro turno de 17 de novembro porque ficou 3,33 pontos aquém da maioria absoluta, numa disputa com quatro candidatos. Matthei, a segunda colocada, não passou dos 25%. Na rodada final de domingo, Bachelet a superou por 62% a 38%.

O índice de comparecimento foi de 42%, ante 49% na votação anterior. Já então parecia se confirmar, de um lado, os levantamentos segundo os quais o Chile é o país do subcontinente onde é menor o interesse pela política e, de outro, a relativa sensação de bem-estar de muitos dos 17,2 milhões de habitantes, dos quais apenas 15% vivem em penúria e irrisório 1,4% é analfabeto. Anteontem, parte dos eleitores de Matthei não foi às urnas porque seria inútil; parte dos bacheletistas, porque não era necessário. É da lógica do sistema facultativo, quando um candidato é favorito absoluto.

Há quem diga que isso servirá para os interessados em contestar a legitimidade do segundo governo Bachelet - ou, no mínimo, para solapar o apoio parlamentar às ambiciosas reformas que ela promete, incluindo a da Constituição. Salvo nesse último caso, que exige 57% dos votos dos congressistas (ante 60% no Brasil), a hipótese é pouco provável. Primeiro porque, em novembro, a coligação Nova Maioria fez jus ao nome na disputa pelas 158 cadeiras em jogo nas duas Casas do Congresso. Na Câmara, o bloco elegeu 67 das 120 vagas. No Senado, ficou com 22 das 38.

Mais significativa foi a guinada à esquerda no âmbito da aliança. Os deputados comunistas eram 3; agora são 6. Os socialistas eram 11; agora são 15. Os democratas-cristãos eram 19; agora são 21. Ambientalistas e independentes radicais completam a maioria. Já no Senado, os democratas-cristãos, limitados a seis cadeiras, tornaram-se uma força política marginal. Algo similar ocorreu na oposição, com a prevalência dos moderados da Renovação Nacional sobre os duros da União Democrática Independente.

As mudanças pretendidas por Bachelet são da reforma educacional, com a adoção do ensino gratuito nas universidades públicas - o que desde 2010 mobilizou muitos milhares de chilenos, alvos de pinochetista repressão; a reforma tributária, que elevará a carga sobre as empresas a 5% do PIB, para custear as anteriores; a da Previdência, esta parcial; e a já citada alteração constitucional. Em relação a essa, Bachelet decerto medirá os passos.

A sua ideia inicial de convocar uma Assembleia Constituinte, em sintonia com as vozes mais estridentes das ruas, decerto será arquivada. A líder estudantil Camila Vallejo, a musa das manifestações, conclamou os eleitores a marcar as cédulas com as iniciais AC. Ela se elegeu deputada pelo Partido Comunista, mas apenas 8% dos eleitores fizeram o que pediu. Em termos realistas, mudanças pontuais é o que Bachelet pode ambicionar, se bem conhece os seus. Isso deverá excluir, por exemplo, o instituto da reeleição. A volta ao voto obrigatório, outra bandeira radical, nem pensar.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.