Abertura gradual para Cuba

O presidente Barack Obama não é de perder oportunidades de anunciar pessoalmente aqueles atos de seu governo que deseja cercar de ampla publicidade, a fim de acentuar a sua repercussão natural. Mas, contrariando o padrão, ele preferiu deixar para um funcionário de terceiro escalão da Casa Branca, o diretor de Assuntos do Hemisfério Ocidental do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Dan Restrepo, o anúncio da decisão de eliminar as restrições às viagens de cubano-americanos a Cuba e às remessas de dinheiro (ou presentes) a seus familiares na ilha. A modesta divulgação dessas medidas, que eram, afinal, promessas de campanha - e aguardadas para estes dias que antecedem a 5ª Cúpula das Américas, a se realizar em Trinidad e Tobago na sexta-feira e no sábado -, foi sintomática. Na agenda externa de Obama, Cuba está longe de rivalizar com o Iraque, o Afeganistão ou a reaproximação com a Europa. Mas a atitude de Washington diante do regime castrista continua a ser uma das mais delicadas questões - de política interna - nos EUA. E, se a intenção do novo presidente é rever o relacionamento com a ilha, ele acaba de deixar claro que escolheu caminhar nessa direção em passos estudados, para não criar antagonismos com a oposição republicana no Congresso e não ser surpreendido por alguma reação adversa (a esta altura improvável) do governo de Raúl Castro. Eis por que Obama não estendeu a Cuba a mesma oferta de contatos diretos feita ao Irã e à Síria, muito menos tocou no problema do embargo econômico imposto à ilha. Esse é um retumbante fracasso de quase meio século. Não apenas não serviu para solapar a ditadura instaurada por Fidel, como ainda lhe deu um pretexto de longa duração para se calcificar no poder e justificar o garroteamento das liberdades no seu desafortunado país. Hoje em dia, absurdamente, se interpõe como nenhuma outra questão singular no diálogo entre os EUA e a América Latina. O anacronismo do embargo fica ainda mais evidente quando se atenta para o fato de que as novas gerações de cubano-americanos já não compartilham da linha-dura preconizada durante décadas pelos fugitivos do castrismo. Prova da mudança de mentalidade, uma pesquisa do ano passado da Universidade Internacional da Flórida revelou, pela primeira vez, uma maioria de cubano-americanos contrária ao bloqueio - e 65% favoráveis ao restabelecimento de relações diplomáticas entre os EUA e Cuba.Na semana passada, até a Fundação Nacional Cubano-Americana, o mais influente lobby dos exilados em Miami, reconheceu a futilidade das tentativas americanas de enfraquecer o seu inimigo. De todo modo, a extinção do embargo teria de ser aprovada pelo Congresso e essa possibilidade é remota, pelo menos enquanto o regime cubano se mantiver aferrolhado. Um teste, em Washington, será o destino do projeto de lei que permitiria a todos os americanos fazer turismo em Cuba. Estima-se que 1 milhão deles aproveitariam a oportunidade, com efeitos incomparavelmente maiores para a indigente economia da ilha do que os da liberação das remessas às famílias dos cubano-americanos. (Obama também autorizou empresas americanas de telecomunicações a prestar serviços a Cuba.)Ao anunciar as medidas, Dan Restrepo ressaltou que a política dos EUA para Cuba "não está hoje congelada no tempo" - uma inequívoca alusão a novas iniciativas de distensão, no que se poderia chamar a abertura lenta e gradual de Obama para Havana. Ele poderia, por exemplo, aceitar a readmissão de Cuba na Organização dos Estados Americanos (OEA), da qual foi excluída em 1962. O assunto emergirá inevitavelmente na reunião do organismo, marcada para os primeiros dias de junho, em Honduras. Outra providência seria a retirada de Cuba da lista de Estados patrocinadores do terrorismo - uma típica ideia fora de lugar do governo Bush. Com isso se completaria a reintegração do país ao sistema interamericano. Ao menos até aqui, o regime cubano está fazendo a sua parte. Pediu que o embargo não fosse discutido na Cúpula das Américas e mandou noticiar na TV estatal as decisões de Obama para permitir o livre fluxo de informação entre o povo de Cuba e o resto do mundo e facilitar a entrega de ajuda humanitária".

, O Estadao de S.Paulo

15 de abril de 2009 | 00h00

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