Acertar o passo com o mundo

O Brasil ficou fora da maior parte dos esforços de integração da economia global nos últimos 13 anos, quando sua diplomacia comercial foi guiada por uma embolorada mistura de terceiro-mundismo, resíduos de um anti-imperialismo superado na maior parte do mundo e uma política industrial há muito abandonada em países emergentes mais dinâmicos. Mas há sinais animadores. Pela primeira vez, agora, desde a instalação do PT no governo federal, há pelo menos três ministros favoráveis a uma abertura maior para o comércio internacional e a uma inserção mais efetiva nas cadeias globais de produção. Um dos três, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Armando Monteiro, falou ontem sobre a importância de se ampliar a presença do País nos mercados e sobre a prioridade de uma convergência regulatória com os Estados Unidos, onde as principais barreiras, segundo ele, são as normas técnicas.

O Estado de S.Paulo

11 Dezembro 2015 | 02h55

Como participante do Fórum Estadão – Exportação, o ministro retomou uma pregação quase incessante desde sua chegada ao governo federal, no começo do ano, a favor de acordos comerciais mais ambiciosos, sem abandono do Mercosul, e de um maior esforço de exportação. As vendas de bens ao exterior, lembrou, correspondem a cerca de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) – “pouco para os padrões internacionais”, em sua avaliação. Mas para isso será preciso cuidar da competitividade. Será preciso, segundo ele, incluir na agenda itens como investimentos em infraestrutura e a formação de uma agência de crédito especializada no apoio ao exportador.

Um aspecto especialmente importante das propostas do ministro é a ênfase em fatores determinantes da produtividade. O câmbio pode influir no comércio, ajustando a relação entre preços internos e externos, mas o poder de competição dependerá, no longo prazo, de elementos como a eficiência produtiva e a inovação. Ao insistir nesses fatores estruturais, o ministro de certo modo se afasta de um discurso muito repetido entre seus companheiros do empresariado e centrado na questão cambial.

Mas também do lado empresarial já se ouve com maior frequência a fala favorável a uma economia mais aberta e mais integrada nos mercados internacionais. “O fechamento da economia brasileira deixou de ser uma opção”, disse no Fórum o diretor do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Fiesp, Thomaz Zanotto. Com a posse de Mauricio Macri na Argentina e a vitória oposicionista na eleição legislativa na Venezuela pode surgir, acrescentou, um contexto favorável a uma inserção maior do Mercosul na economia global. O Brasil, argumentou, poderia, por exemplo, tentar uma aproximação com a Parceria Transpacífico. “Seria uma forma de tirar o País do atraso que tivemos nos últimos anos em matéria de acordos internacionais.”

Toda essa conversa vai na direção oposta à da política mantida pelos governos petistas e ainda sustentada, com poucos sinais de mudança, pela presidente Dilma Rousseff. Mas hoje a ideia de uma economia menos protecionista, mais integrada globalmente e mais baseada na busca da competitividade é sustentada por mais pessoas no primeiro escalão do governo. O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, tem defendido a abertura e a integração até como fatores de maior estabilidade econômica: afinal, tendem a ser mais competitivos os países com inflação mais baixa, contas públicas mais equilibradas, tributação mais racional e uso mais eficiente de recursos públicos. Quem se lembra de ter ouvido esse tipo de argumento de um ministro da Fazenda no período petista? A ministra da Agricultura, Katia Abreu, também se enquadra facilmente no grupo favorável à mais ambiciosa política de inserção global.

Falta, é claro, convencer a presidente a abandonar os cacoetes do protecionismo e do terceiro-mundismo. As mudanças políticas na vizinhança, também citadas pelo ministro Armando Monteiro, talvez tenham, afinal, um saudável efeito pedagógico.

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