Acidentes não acontecem à toa

A Ponte dos Remédios foi interditada nos dois sentidos na madrugada de quarta-feira depois que 20 metros da passarela e da mureta de proteção de pedestres, no sentido Lapa, desabaram no Rio Tietê. A via liga as Ruas Silva Airosa e Major Paladino, na Vila Olímpia, região da Ceagesp, na zona oeste de São Paulo, à Avenida dos Remédios, no município vizinho de Osasco. Técnicos da Prefeitura de São Paulo acreditam que a trepidação provocada pelo intenso tráfego de caminhões na ponte fez a lateral das pistas, malconservada, ceder.

O Estado de S.Paulo

26 Novembro 2011 | 03h05

Há 14 anos, uma profunda rachadura indicou risco de desabamento da ponte, construída na década de 60, e, até então, nunca reformada. Na época, a Marginal do Tietê ficou interditada por dois meses, até que a instalação de uma estrutura metálica na ponte restabelecesse a segurança no local. A reforma completa durou seis meses e custou R$ 6 milhões à Prefeitura.

Em entrevista à Rádio Estadão ESPN, o superintendente da Secretaria Municipal de Infraestrutura e Obras, Régis de Oliveira, explicou que a lateral da ponte não recebeu reforço durante as reformas realizadas em 1997 e, por isso, houve problemas na junção da passarela com as pistas. Segundo ele, o acidente não indica falhas na manutenção, porque há acompanhamento constante das condições das pontes e viadutos da cidade. Mas "acidentes sempre acontecem".

Não aconteceriam, pelo menos não com tanta frequência, se houvesse prevenção adequada. Uma via que recebe milhares de veículos por dia, em grande parte pesados, não pode passar muito tempo sem reformas ou reparos destinados a corrigir o desgaste.

Há cinco anos, o Sindicato de Arquitetura e Engenharia (Sinaenco) realizou estudo que mostrava a necessidade de reparos em pelo menos 50 pontes e viadutos da capital. Em 2007, a Prefeitura firmou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público Estadual, definindo obras de recuperação de 68 pontes e viadutos, mas até agora apenas 8 obras foram concluídas. O acordo estabeleceu prazo de dez anos para a realização de todas as reformas.

São visíveis os sinais de desgaste dessas estruturas. Dias atrás, um dos autores daquele estudo, o engenheiro Gilberto Giuzo, chamou a atenção para a situação do Viaduto Moffarrej, da Ponte da Freguesia do Ó e da Ponte dos Remédios. Em entrevista ao portal de notícias do Grupo Bandeirantes, ele apontou a existência de várias marcas de infiltração e pontos de ferrugem na estrutura dessas construções. "As construções estão com prazo de validade vencido e, se não forem recuperadas, podem causar danos e, em casos extremos, ruir", advertiu.

A queda da passarela da Ponte dos Remédios ocorreu três dias depois dessa entrevista. Para Giuzo, os custos para a Prefeitura seriam muito menores se a cada dois anos os reparos necessários fossem realizados. Em resposta, a Secretaria Municipal de Infraestrutura e Obras informou que todas as 443 estruturas, entre pontes, viadutos, pontilhões e passarelas, da cidade serão reformadas e que a meta estabelecida em 2007 no TAC não foi ainda integralmente cumprida, porque recentemente o documento foi revisado e seus objetivos ampliados. Segundo Régis de Oliveira, apesar das limitações do orçamento municipal, um amplo processo de licitação será iniciado para que, em 2012, pelo menos 30 pontes e viadutos sejam reformados. Promessas assim são sempre feitas quando ocorre um acidente.

É preciso ir muito além disso e reconhecer que, infelizmente, não existe entre nós uma cultura de manutenção de obras públicas. Os governantes em geral só se preocupam com obras novas, porque isso tem retorno eleitoral, fechando os olhos ao fato de que os acidentes decorrentes da falta de conservação do que já existe acarreta sérios prejuízos.

As advertências a respeito desses riscos e da necessidade de tomar as medidas necessárias para reduzi-los têm sido frequentes em São Paulo. Portanto, não se pode dizer simplesmente que os acidentes "acontecem", como se fossem uma fatalidade. Eles não acontecem à toa.

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