Acordo tímido com o México

Segunda maior economia da América Latina e uma das mais dinâmicas do Ocidente, o México poderia ser um excelente parceiro num acordo de livre-comércio, mas a diplomacia comercial brasileira tem agora objetivos bem mais modestos. Até a liberação do comércio de veículos, prevista para entrar em vigor neste ano, deve ficar para mais tarde. Os dois países manterão por mais quatro anos o acordo automotivo, com limitação de valores negociados. O acordo foi renovado ontem, no Palácio do Itamaraty, no Rio de Janeiro, em cerimônia com a participação do chanceler Mauro Vieira, do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Armando Monteiro, e do ministro da Economia do México, Ildefonso Guajardo Villareal. O acordo venceria dia 18. Ao rejeitar a liberação das trocas setoriais a partir daí, o governo de Brasília reconheceu internacionalmente, mais uma vez, o baixo poder de competição da indústria instalada no País.

O Estado de S.Paulo

10 Março 2015 | 02h04

Segundo o ministro do Desenvolvimento, a preservação do regime de cotas é uma forma de compensar, pelo menos parcialmente, as dificuldades de vendas da indústria no mercado interno, hoje caracterizado por "uma certa retração". É mais uma confissão de fraqueza. Indústrias de países em recessão ou com economia desaquecida tendem a buscar mercados no exterior. A importação, nesses momentos, é geralmente o menor dos problemas. Com a demanda interna enfraquecida, os concorrentes estrangeiros terão dificuldade para aumentar suas vendas - exceto em condições excepcionais. Essas condições parecem ter existido nos últimos dois anos, quando o recuo das exportações foi bem mais sensível que o das importações.

A renovação do acordo de cotas começará com um recuo, também proposto pelo governo brasileiro. A cota em vigor, de US$ 1,64 bilhão para cada lado, será substituída por uma de US$ 1,56 bilhão no primeiro período. A cada ano haverá um acréscimo de 3%, até o limite de US$ 1,70 bilhão para o período de 2018 a 2019. Importações acima dos limites serão taxadas com alíquota de 35%.

Curiosamente, a associação brasileira das montadoras defendeu a vigência do livre-comércio de veículos a partir deste ano. O presidente da entidade, Luiz Moan, acabou aplaudindo a renovação das cotas - uma boa solução, segundo disse, em vista das condições do Brasil. A defesa do livre-comércio, nesse caso, foi um tanto surpreendente, por causa do fraco desempenho da indústria no comércio exterior. As exportações de autoveículos e de máquinas rodoviárias caíram de US$ 16,56 bilhões em 2013 para US$ 11,5 bilhões em 2014 - um recuo de 30,57% em um ano. No primeiro bimestre de 2015 ficaram em US$ 1,52 bilhão, 20,81% abaixo do valor de um ano antes. Nas trocas do setor de veículos com o México, o Brasil teve um déficit de US$ 1,46 bilhão. Em 2014, o México tomou o lugar do Brasil como maior produtor de veículos da América Latina.

Internamente, a indústria dependeu, nos últimos anos, de incentivos fiscais, agora suspensos. Na exportação, as fábricas brasileiras continuaram dependentes da Argentina. As trocas com o principal sócio do Mercosul continuam sujeitas a cotas, com restrições severas mantidas por exigência argentina. No comércio com o México, os obstáculos à liberalização do regime automotivo são impostos pelo lado brasileiro.

A indústria automobilística brasileira, assim como outros segmentos do setor de transformação, avançaram muito menos do que poderiam em produtividade, inovação e competitividade na última década porque o governo deu prioridade a acordos com países menos industrializados. A diplomacia comercial evitou a aproximação com os Estados Unidos e foi incapaz, por causa das amarras do Mercosul, de concluir um acordo com a União Europeia. A indústria, com exceção de alguns segmentos, passou a jogar em divisões inferiores, com foco em mercados emergentes ou pobres. A presidente Dilma Rousseff, segundo fontes de Brasília, pretende maior aproximação com o mercado americano. Se for verdade, seria um passo para dinamizar a indústria.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.