Acreditemos no Brasil

Dilma não completou três meses de governo, mas o clima é de fim de festa. Escrevo este artigo antes das manifestações marcadas para ontem, dia 15 de março. Espero que tenham sido pacíficas, e não contaminadas por black blocs da vida e grupos ideológicos interessados em algemar os sentimentos da sociedade e inibir protestos democráticos legítimos. O que quer que tenha acontecido, amigo leitor, ninguém conseguirá silenciar o grito de indignação do brasileiro honrado e trabalhador, mas profundamente revoltado. O governo Dilma Rousseff está agonizando. Isolada na sua arrogância, no desgoverno provocado por sua incompetência, acuada pelos resultados evidentes do maior estelionato eleitoral da nossa História, desmentida pela força dos fatos e dos números, a presidente da República, só tem uma saída: a renúncia.

Carlos Alberto di Franco, O Estado de S.Paulo

16 Março 2015 | 02h04

O governo tentará reconstruir pontes, oferecer supostos salva-vidas aos náufragos da Lava Jato. O Supremo Tribunal Federal, felizmente, é outro departamento. Não está submetido às conveniências políticas do Executivo. Além disso, acordos funcionam quando o governante tem um mínimo de credibilidade e sustentação. Dilma desceu ao fundo do poço. E Lula, o criador, escorrega com ela. O ex-presidente, astuto e rápido no jogo, tenta negar a paternidade. Agora é tarde. Dilma não cairá sozinha. E Lula sabe disso. Assombra-o, sobretudo, o avanço das delações premiadas. Só isso explica seu irresponsável apelo ao "exército do Stédile". Lula está tenso por uma razão muito simples: a mentira escancarou-se, a punição aproxima-se, a estrela apagou-se.

Vivemos um momento difícil e perigoso. Os assaltantes do dinheiro público e os estrategistas do projeto de perpetuação no poder, fortemente atingidos pela solidez das nossas instituições democráticas, não soltarão o osso com facilidade. O clima não está legal. O País está radicalizado graças à luta de classes tupiniquim do "nós e eles". Há riscos no horizonte. Mas precisamos acreditar no Brasil e na capacidade de recuperação da nossa democracia. A sociedade amadureceu. O exercício da cidadania rompeu as amarras dos marqueteiros da mentira. E a imprensa, o velho e bom jornalismo, mostrou sua relevância para a sobrevivência da democracia e das liberdades.

A relação de Lula e do PT com a democracia é um pouco estranha. Nada como o recurso a um banco de dados para revisitar pensamentos reveladores. Em entrevista à Folha de S.Paulo, em 2009, o ex-presidente afirmou que o papel da imprensa não é o de fiscalizar, e sim informar. "Não acho que o papel da imprensa é fiscalizar. É informar. Para ser fiscal tem o Tribunal de Contas da União, a Corregedoria-Geral da República, tem um monte de coisas. A imprensa tem de ser o grande órgão informador da opinião pública." Lula questionava um dos pilares da democracia: o papel fiscalizador da imprensa. Tinha seus motivos, sem dúvida. Suas declarações encerravam uma contradição com seu suposto e alardeado respeito à liberdade de imprensa. Fiscalizar faz parte integrante do processo informativo. E como Lula não é tonto, o falso disjuntivo (informação versus fiscalização) tinha uma finalidade precisa: limitar o papel fiscalizador dos jornais e desacreditá-lo. Não conseguiu. Felizmente.

Os bons ventos da economia mundial nos mandatos de Lula, seu bom senso, seu carisma e seu talento de encantador de serpentes garantiram-lhe um céu de brigadeiro. Mas seu desejo de perpetuação no poder, direto ou por delegação temporária, não combinava com escrúpulos éticos. Os bons indicadores da economia, então, não impediram o Brasil de trombar com as consequências funestas de um populismo que encolheu a oposição, estimulou o cinismo, encurralou algumas togas e tentou aprisionar as redações.

Afinal, qual é perversidade que deve ser creditada na conta dessa imprensa tão questionada por Lula? A denúncia de recorrentes atos de corrupção que nasceram como cogumelos à sombra da cumplicidade presidencial? Ou será que a irritação de Lula é provocada pelo desnudamento de seu papel na crise que assola o Brasil? A sustentação do governo de coalizão, aético e sem limites, deu no que deu.

"Se Jesus Cristo viesse para cá e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão." Eis uma pérola do pragmatismo lulista. O ex-presidente não fez nada para mudar esse quadro. Ao contrário, aprofundou-o. Seu estilo de governança, transmitido com primorosa pedagogia para sua sucessora, fortaleceu o que de pior existe na vida pública brasileira.

Para o brilhante antropólogo Roberto DaMatta, há um lado mais dramático em tudo isso. "Lula tem a virtude de falar claro", dizia ele. "Às vezes penso que ele não tem inconsciente. De perto, a declaração pode parecer horrível. De longe, é a constatação da nossa face dupla, das nossas cumplicidades com o partido que não ia roubar nem deixar ninguém fazê-lo, mas fez o mensalão; ressuscitou Sarney e quejandos, desmoralizou o Congresso; enfim, o nosso lado que odeia a lei valendo para todos - esse Judas dentro de cada um de nós que não quer mudar o 'você sabe com quem está falando?'", concluiu DaMatta.

O diagnóstico é duro, mas verdadeiro. Existe um elo indissolúvel entre o político que rouba, o cidadão que ultrapassa o farol vermelho, o governante que confronta as normas e o assaltante que mata: todos deixaram de levar em conta a ética e a lei. E só há um modo de reverter essa distorção da nossa cultura: educação, exercício da cidadania, ética, liberdade de imprensa e fiscalização do poder.

O Brasil depende - e muito - da qualidade da sua imprensa e da coerência ética de todos nós. Podemos virar o jogo. Acreditemos no Brasil e na democracia.

*Carlos Alberto di Franco é jornalista. E-mail: difranco@iics.org.br 

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