Agronegócio - adição de valor e internacionalização

O equilíbrio da balança comercial brasileira depende fundamentalmente do desempenho do agronegócio. Em 2013 o superávit do setor alcançou US$ 83 bilhões, ante um déficit de US$ 81 bilhões dos demais segmentos da economia.

Marcos Sawaya Jank, O Estado de S.Paulo

25 Novembro 2014 | 02h05

O sucesso do Brasil nasce com o forte crescimento da população, urbanização e renda per capita no mundo em desenvolvimento, principalmente em regiões extremamente escassas em recursos naturais como a Ásia e o Oriente Médio, que concentram mais de 60% da população do planeta. Mas foi graças aos ganhos de produtividade e eficiência sistêmica nas três últimas décadas que nos tornamos um player global respeitado e temido no mundo das commodities de origem agrícola.

Hoje nossas commodities agropecuárias e agroindustriais ajudam a garantir a segurança alimentar e o controle da inflação em mais de 200 países, mas pouco sabemos sobre o que ocorre com elas após deixarem nossos portos. Nossa experiência de diferenciação e adição de valor nas cadeias alimentares globais é bastante limitada. Restringe-se a poucas marcas internacionais e quase nenhum domínio dos canais de distribuição e consumo fora do Brasil.

O exemplo mais notório da desenvoltura com que navegamos no mundo das commodities é o complexo soja, principal item da pauta de exportações brasileiras. Junto com o minério de ferro, a soja responde por 75% das exportações brasileiras para a China, sustentando o superávit comercial que mantemos com esse país. Acontece, porém, que a maior parte da soja brasileira é produzida nos Estados do Centro-Oeste, roda 1.500 km de caminhão em estradas precárias para chegar aos portos congestionados do Sul, é embarcada em navios pequenos e atravessa o mundo para virar ração para alimentar suínos e aves na China. O milho brasileiro já começa a seguir o mesmo caminho.

Não há dúvida de que a cadeia brasileira de suprimento de ração animal para a China se provou eficiente, ainda que longa e custosa. Mas será ela sustentável no longo prazo? Seu balanço ambiental, hídrico, energético se justifica ante o crescimento exponencial do consumo de carnes na Ásia? Representa ela o maior valor que o Brasil poderia receber pelos recursos naturais e esforços demandados? No agronegócio vamos continuar unicamente na posição de exportadores de grandes volumes de matérias-primas padronizadas? Ou teríamos espaço para inovar: desenvolver produtos adaptados a diferentes segmentos de consumidores, dominar canais de distribuição, estabelecer relações diretas com varejistas e consumidores, desenvolver campanhas de comunicação, consolidar marcas globais?

Creio que hoje temos um jogo muito mais sofisticado a ser enfrentado. Em vez de apenas entregar commodities básicas nos portos brasileiros, temos oportunidades fantásticas para, de um lado, agregar valor aos produtos exportados e, do outro, internacionalizar nossas empresas, dominando canais de logística e posicionando marcas brasileiras no exterior.

Agregar valor aos produtos exportados significa, no caso da soja e do milho, darmos um passo além da exportação de matérias-primas que valem menos de US$ 500 por tonelada. Esse valor poderia ser de quatro a dez vezes maior se conseguirmos ampliar as exportações de proteínas de origem animal (carnes e lácteos), o que inclusive mitigaria o peso dos fretes terrestre e marítimo.

Internacionalizar as empresas brasileiras do agronegócio é um segundo passo ainda mais sofisticado, certamente possível e desejável para o País. A construção de plantas industriais no exterior traz consigo o uso e a difusão de know-how e tecnologia nacionais e a geração de empregos para brasileiros no País e lá fora. Pode, ainda, representar um caminho fundamental para atingir segmentos de mercados que jamais seriam alcançados a partir do nosso país (por exemplo, em razão das restrições de vida útil dos produtos por causa do longo transporte marítimo) ou mesmo abrir mercados inteiros e promissores que hoje estão fechados para o Brasil. Países tendem a facilitar o acesso a seus mercados se empresas estrangeiras realizarem investimentos locais.

É com esse objetivo que a BRF, detentora das marcas Sadia e Perdigão, inaugura amanhã, no deserto de Abu Dabi, nos Emirados Árabes Unidos, a maior fábrica de processamento de alimentos à base de carnes do Oriente Médio. Com investimentos de US$ 160 milhões, essa planta industrial vai produzir cerca de 70 mil toneladas de alimentos processados por ano, gerando mais de mil empregos para cidadãos de 15 nacionalidades. Serão produzidos mais de cem itens, entre hambúrgueres, presuntos, salsichas, empanados, marinados e pizzas, atendendo a gostos e hábitos de consumo locais - em termos de preparo, condimentação, embalagens, etc. -, além de seguirem estritamente os preceitos islâmicos da produção Halal.

A nova fábrica opera de forma integrada com o Brasil, pois basicamente reprocessa localmente carnes congeladas sem osso produzidas em milhares de pequenas propriedades rurais familiares principalmente na Região Sul do nosso país. A integração de cadeias globais de produção, como no caso dessa planta, traz como principal benefício a garantia de qualidade, segurança sanitária e rastreabilidade dos alimentos produzidos, exigências cada vez mais importantes no Oriente Médio e na Ásia. Com fábricas como essa conseguimos integrar todas as etapas da cadeia produtiva, desde a genética das aves até o consumidor final no exterior.

As empresas brasileiras já estão maduras para avançar e participar do tabuleiro das cadeias de valor do agronegócio global, com estratégias que ultrapassam o comércio e a entrega de commodities nos portos brasileiros. Estamos inaugurando uma nova fase, cuja característica são os produtos diferenciados de maior valor adicionado, a presença local no exterior com produção e distribuição e a consolidação global das grandes marcas brasileiras.

*Marcos Sawaya Jank é diretor executivo global de assuntos corporativos da BRF. E-mail: marcos.jank@brf-br.com 

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