Ainda longe do fim

Como que para não deixar dúvidas sobre o seu intento de manter as suas operações terroristas, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) não esperaram nem 24 horas depois de anunciar que deixarão de sequestrar civis e libertarão em breve os seus dez últimos "prisioneiros de guerra"- seis policiais e quatro militares feitos reféns entre 1998 e 1999 - para desfechar um ataque a instalações do Exército e da Polícia na cidade de Cardono, no sudoeste do país.

O Estado de S.Paulo

29 Fevereiro 2012 | 03h09

Embora, segundo as primeiras informações, a incursão não tenha causado vítimas, indicando ter sido antes um ato rotineiro de violência do que o início de uma ofensiva mais ampla, a investida deixa claro que a prometida libertação dos policiais e militares e o abandono do sequestro de civis - a organização criminosa mantém em cativeiro entre 300 e 400 deles - está longe de ser o começo de seu fim.

Cada vez mais envolvida com o narcotráfico e com a prática de crimes comuns, as Farc são hoje uma pálida lembrança do temível movimento maoista formado em 1964. Continuam a ser um problema, porém deixaram de ser uma ameaça direta à democracia no país - cujo grande feito foi ter-se mantido íntegra diante da estratégia farquista de provocar o advento de um regime militar, conforme a teoria do quanto pior, melhor, que nunca deu certo em parte alguma.

Desmoralizada politicamente e acuada no território pela decisão de não lhe dar trégua tomada pelo então presidente Álvaro Uribe - cujo ministro da Defesa, Juan Manuel Santos, se elegeu para o seu lugar em 2010 e manteve a mesma estratégia -, a narcoguerrilha encolheu em todos os sentidos. Os seus efetivos caíram de 17 mil para cerca de 8,5 mil. Cinco dos sete integrantes da cúpula da organização foram abatidos nos últimos quatro anos, entre eles, o comandante Alfonso Cano.

O sequestro de civis como fonte de financiamento de suas atividades, mediante a cobrança de extorsivos resgates, deixou de ser um bom negócio, visto que o debilitamento das Farc se refletiu na perda de capacidade para capturar colombianos pelos quais pudessem cobrar quantias vultosas. O mesmo efeito tem produzido a política de guerra declarada aos seu parceiros - às máfias da droga - no âmbito do Plano Colômbia, em cooperação com os Estados Unidos, lançado em 2000.

Ainda assim, desde meados do ano passado, as Farc capturaram pelo menos 25 civis. Há três meses, durante uma operação militar do governo para o resgate de prisioneiros, os criminosos executaram friamente quatro civis mantidos reféns por mais de 12 anos. Sabendo que lida com homicidas que seguem a lei do cão, como delinquentes comuns, o presidente Santos guardou-se de saudar, além do estritamente necessário, o fim dos sequestros e a soltura dos reféns militares, anunciados no domingo.

Santos lembrou que a eventual retomada do diálogo com o movimento - depois do vexaminoso fracasso dos entendimentos autorizados em 1998 pelo presidente Andrés Pastrana - depende da libertação de todos os reféns e do cumprimento de duas outras condições consideradas inegociáveis: o fim do recrutamento de menores e da participação no narcotráfico. Ao mesmo tempo, o presidente quer mudar a Constituição para reduzir as penas a que estão sujeitos os chefes das Farc, se admitirem os seus crimes. Em troca da rendição e deposição das armas, não será de excluir alguma forma de anistia aos soldados rasos da quadrilha.

O governo colombiano e os terroristas estão de acordo em relação a um ponto: o engajamento do Brasil na logística do resgate dos "prisioneiros de guerra" em até um mês. A ex-senadora colombiana Piedad Córdoba, que participou de 15 operações do gênero desde 2008, disse que o roteiro para o resgate deve ficar pronto na próxima semana. "É preciso", observou, "contar o tempo que o Brasil demorará para arrumar os helicópteros" para o transporte dos resgatados.

O presidente Santos só não quer que a soltura se transforme em um "circo midiático".

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