Além de um território de disputa

Famílias controladoras e professores ideológicos erram igualmente

Cecília Canalle Fornazieri, O Estado de S.Paulo

31 Agosto 2016 | 03h03

A discussão do projeto de lei Escola sem Partido trouxe à baila o papel da família e do Estado na educação, como se a criança e o jovem ficassem no centro de um cabo de guerra em cujas extremidades estivessem, de um lado, escolas politicamente corretas e do outro, famílias impecáveis. Mas quantas vezes vimos, na História, Estados que, no exercício do seu dever de preservar valores fundamentais da nação, os destruíram em nome do poder? E quantas vezes assistimos, atônitos, ao mal que tantos pais fizeram a seus filhos? Não se trata, portanto, de defender a hegemonia de nenhuma parte, mas de verificar qual a contribuição de cada uma.

A função afetiva, por exemplo, realiza-se com mais frequência no espaço familiar, enquanto lugar de pertencimento e de misericórdia. Quanto mais a criança sente a segurança de pertencer à sua família, mais estará apta para confrontá-la e para se confrontar com o que a escola e outros tantos grupos defendem. É na família que se tem as maiores brigas e é para lá que podemos voltar a despeito de nossos erros, porque esse é um lugar onde, mesmo quando desestruturado e confuso, em geral ainda é possível encontrar um fio de gratuidade fundante, pelo menos um pressentimento de que nascemos sem merecer e pudemos continuar vivos porque alguém cuidou de nós quando éramos somente prejuízo capitalista.

O Estado moderno não foi criado para desempenhar essa função. Quando é obrigado a fazê-lo, apresenta incontáveis dificuldades; e tende a acertar mais quando delega essa tarefa a sujeitos sociais que se organizam para tanto, dando-lhes o devido acompanhamento. Ao Estado cabe garantir a igualdade de direitos e a diversidade de pessoas e opiniões a fim de gerar o substrato da convivência entre os cidadãos.

Mas a criança – quando dá tudo certo – cresce. E fora da família vai verificar as hipóteses que recebeu do grupo que a criou, confrontando-as, a duras penas – bem o sabem todos os que delas se acercam –, com tudo o que encontra. Nesse momento os interlocutores centrais deixam de ser os pais e passam a ser amigos e adultos que estão na escola, na mídia e nos grupos sociais.

E é aí que a escola, com seus professores, surge com um papel excepcional! Porque o jovem precisa de adultos para continuar esse percurso e, com frequência, é com o professor que ele testa diversas das suas hipóteses. E o problema não é que o professor mais ideológico e militante tente inculcar em nossos filhos ideias de que discordamos. Professores ideológicos podem ter atitudes com que não concordamos, mas também podem ser admiráveis em sua dedicação a uma causa que considerem justa. Num tempo em que o desejo de infinito do homem parece encontrar-se confinado no mais novo Pokémon, estampado no último modelo de iPhone, é admirável ver um professor lutando por uma hipótese de bem. Ainda que meus filhos me digam e me façam lembrar como é penoso ouvir professores que sempre leem tudo com a mesma chave de leitura.

O fundamental é que existam – tanto nas famílias como na comunidade escolar – adultos que gostem de seus filhos e seus alunos mais do que de seus projetos de mundo, desejando e colaborando para que os jovens possam tornar-se protagonistas de sua vida, que é única, tendo algo a dizer e a contribuir para o mundo.

É necessário entendermos a delicadeza e a responsabilidade dessa janela de disponibilidade que os jovens nos abrem. Como vamos acompanhá-los nesse percurso em que precisam conhecer e avaliar caminhos e escolhê-los livremente? Porque ninguém é obrigado a fazer nenhum trajeto determinado, a vida é dada a cada um de modo intransferível e gratuito. Educar é dar um método para avaliar tudo o que se ouve a partir do desejo que cada um tem de felicidade, justiça, etc. Fora disso é a ideologia dos professores, dos amigos ou da família.

Os jovens estão – no pleno exercício de sua juventude – ainda elaborando a sua capacidade de avaliar o mundo. A idade confere-lhes esse direito; cabe a nós perceber que crescem e que são um bem. O papel dos professores e dos pais é ajudá-los a encontrar suas respostas, e não o de se substituírem a eles. Famílias controladoras e professores ideológicos erram igualmente: não supõem que existam hipóteses mais satisfatórias do que as que escolheram para si e não apostam no percurso desses jovens, eles os querem não como sujeitos livres, mas como seguidores. E isso pode ocorrer sendo boa ou má a nossa intenção. O substrato desse embate parece partir de uma premissa negativa: o outro não é um bem, uma fonte de possibilidades interessante a quem vale a pena, se não conhecer, ao menos dar a chance de ser avaliada.

O que poderia fazer famílias tão distintas e escolas de todo tipo ser mais produtivas na formação do jovem sem que ele seja apenas um território de disputa? A cena do garoto português que consola o torcedor francês após a derrota da França na Eurocopa poderia dar uma pista. Seria impensável e péssimo que não houvesse torcedores de times diferentes. Mas antes de serem torcedores há uma humanidade que aquele garoto expressou plenamente: o outro sofre como eu, isso me dói e é anterior ao fato de ele ser meu adversário. O que faço diante disso? Daí nascem as propostas mais verdadeiras, que não ignoram a realidade, ao contrário, vão fundo nela, mais fundo do que somente o problema social e econômico. O que move o homem é uma misteriosa soma de dor e alegria. Sem essa memória nos reduzimos a executores da política A ou B, defensores de modelo de família A ou B, e isso é de um cansaço e de uma violência que todos conhecemos porque não ficamos mais felizes nem quando ganhamos!

Esta é a prova: perdemos até quando ganhamos porque o mundo fica menor quando fica do meu tamanho.

*Mestre e doutora em Educação pela Universidade de São Paulo, é professora de comunicação na Fatec Sebrae

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