Alerta na segurança pública

Já é hora de o governo do Estado se dar conta da necessidade de tomar medidas mais ousadas que as anunciadas até agora para evitar que o bom desempenho do aparelho policial seja prejudicado

O Estado de S.Paulo

18 Junho 2017 | 05h00

O atraso na renovação da frota de veículos das Polícias Militar (PM) e Civil, mostrado em reportagem do Estado, que prejudica o seu desempenho, é lamentável, principalmente levando-se em conta que São Paulo vem fazendo progressos significativos no combate ao crime, que o deixam em melhor situação em relação aos demais Estados. E o fato de a recuperação desse atraso ser em geral muito difícil em curto prazo – e afetar um setor especialmente sensível para a população, o da segurança pública – torna ainda mais grave a situação. 

Dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação mostram que o problema começou em 2015. Entre 2012 e 2014, a PM recebeu 4.943 carros (média de 1.647 por ano) e 1.817 motos (média de 605). De 2015 até maio deste ano, o total de carros ficou em 1.231 e o de motos em 1.043. Para a Polícia Civil, que ficou em situação ainda pior, foram comprados no mesmo período 2.239 carros, dos quais 708 entregues em 2015. 

Os reflexos desse atraso já se fazem sentir, particularmente no interior, onde a polícia está sendo levada a alterar hábitos e procedimentos. Em 30 bairros de Campinas, o patrulhamento já vem sendo feito a pé, o que evidentemente prejudica muito a capacidade operacional da PM, em especial quando se trata de capturar bandidos em fuga. A PM alega que esse tipo de policiamento permite maior proximidade com a população da área patrulhada, o que é importante para estabelecer uma relação de confiança com os moradores. É verdade que esse é um aspecto positivo do patrulhamento a pé, mas tudo indica que o que está por trás dessa decisão é mesmo a falta de viaturas, como afirma o vereador Nelson Santini Neto.

O que ocorre em outras cidades do interior reforça o que diz Santini Neto. Em algumas, como Tatuí, a PM contorna o problema programando ações conjuntas com as guardas municipais, compartilhando o uso dos veículos. Em outras cidades menores, como Pereiras e Alambari, a PM dispõe de apenas uma viatura. Nelas, antes pacatas – o que no passado justificava uma presença policial discreta –, a violência já está chegando.

Segundo a Secretaria da Segurança Pública, a renovação da frota recomeça neste ano. Serão investidos R$ 75 milhões na compra de 150 carros para a Polícia Civil (R$ 12 milhões) e 828 para a PM (R$ 63 milhões). A Secretaria informa também que desde 2011 foram investidos R$ 522 milhões na compra de carros, motos e outros veículos para as duas polícias. O número pode impressionar, mas não muda o fato de a renovação da frota estar atrasada, como indica a comparação das compras naqueles dois períodos. Assim, mesmo com as compras anunciadas para este ano, a média continuará inferior à das compras feitas entre 2012 e 2014. 

A não ser que a renovação se acelere muito – o que não parece que vai ocorrer, considerando o volume de compras anunciado para 2017 –, a situação tende a piorar. É que o desgaste da parte da frota não renovada aumenta o número de acidentes. Outro dado obtido pela reportagem mostra que a PM vem registrando cerca de 700 acidentes por mês. O tempo que leva o reparo de número tão elevado de viaturas afeta o desempenho das patrulhas.

Quando se junta o atraso na renovação da frota com dados do Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Sindpesp), segundo os quais 40% das cidades paulistas não têm delegado titular, deve-se concluir que já é hora de o governo do Estado se dar conta da necessidade de tomar medidas mais ousadas que as anunciadas até agora para evitar que o bom desempenho do aparelho policial seja prejudicado.

São Paulo avançou muito no combate aos vários tipos de crime nos últimos anos. O dado mais impressionante é a redução de homicídios, que em 2015 ficaram em 8,73 por 100 mil habitantes, muito abaixo da média nacional, de 29,1. Tudo deve ser feito para preservar essa conquista, o que começa garantindo às Polícias Civil e Militar os meios para continuar agindo com eficiência. Os sinais de alarme começam aparecer.

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